cabeça tubarão
1, Maio 01e 2008 at 11:24 am | In literatura | 3 Comments
É fácil fazer citações e referências. O difícil é costurá-las e deixar a colcha de retalhos coerente, coesa e natural. O livro de estréia de Steven Hall, “Cabeça Tubarão” consegue fazer isto muito bem e deixá-lo modernoso com muito bom gosto.
O livro tem referências diretas e indiretas a outras obras de literatura como as de Jorge Luis Borges, Jonathan Safran Foer, Lewis Carroll; filmes como Amnésia, Matrix, Tubarão, Casablanca e incontáveis citações de outras mídias como música e seriados de TV, numa miríade bem interessante de cultura pop. Mas, como convém na neo-pós-modernidade, a leitura do livro em si não basta. Parte da graça está (como para quem assiste ao seriado Lost) em discutir o livro na internet, ver seus vídeos no YouTube, participar de blogues específicos e encontrar capítulos “perdidos”. E funciona!
Eric Sanderson, o protagonista, é um amnésico que acorda sem identidade e começa a receber cartas de si mesmo no passado. E se vê num dilema entre acreditar que o que causou sua perda de memória foi um tubarão conceitual (!) que se alimenta das experiências humanas (hipótese lançada por si mesmo no passado) ou a amnésia dissociativa originada por um grande trauma causado pela morte de sua namorada (hipótese lançada pela médica que foi indicada por si mesmo no passado). E o dilema continua entre continuar lendo as cartas que chegam periodicamente e embarcar no que parece ser uma loucura muito bem construída ou levar uma vida normal dividindo as tardes chatas apenas com seu gato.
Esta primeira parte do livro é, sem dúvida, a melhor. É como escutar os discos do Tim Maia em sua fase “Racional”. A forma é excelente, é a melhor fase do Tim Maia em sua musicalidade. Pode-se descartar as letras que a melodia já é suficientemente boa! No entanto fica a dúvida: e se livro “Universo em Desencanto” que o Tim insiste para que seja lido esteja certo mesmo? E se a “Imunização Racional” é exatamente o que estou precisando? A dúvida, como diria Descartes, é sempre salutar.
Pois bem, nas partes seguintes do livro uma posição é claramente tomada, fazendo com que a narrativa perca um pouco sua força. Mas fica outra dúvida interessante até o seu enigmático final: o que é realidade e o que é ficção. Como o “Labirinto do Fauno“, há argumentos para que qualquer lado possa se armar e render uma boa discussão.
Não demora o próprio livro estará em outras mídias: sua adaptação cinematográfica logo estará sendo produzida. E ganchos para continuações estarão presentes. Não duvido que uma série e que bonequinhos articulados logo sejam produzidos. Nada mais pop. Mas é um pop dos melhores.
Ah, destaque para tradução da Vanessa Bárbara, uma blogueira de mão cheia. Outra pessoa não poderia ter feito melhor.
Blog no WordPress.com. | Theme: Pool by Borja Fernandez.
Entries and comments feeds.