bons ares
28, junho 28UTC 2009 às 11:03 pm | Publicado em desenhos | 2 ComentáriosTags: balão

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O paradoxo dos ares: o meio de trasporte aéreo mais seguro é o que parece mais frágil.
meus pêsames não bastam
24, junho 24UTC 2009 às 10:09 pm | Publicado em cotidiano | 3 ComentáriosTags: carli filho;, luto
Charge do Yuriy Kosobukin, da Ucrânia
Sinceramente, nunca sei o que dizer a alguém enlutado durante o velório. Os “meus pêsames” e/ou “meus sentimentos” sempre me apareceram artificiais demais, cumprindo tabela. Se for para dizer isso, parece melhor não dizer nada. Uma conversa informal também é perigosa, pois o risco de soltar um “tudo bem?” automático é grande. E é lógico que não está tudo bem. Assim fico lá meio sem jeito, acreditando que vale mais a presença e um abraço de verdade do que palavras pouco inspiradas.
Dito isto, posso afirmar o que mais me chocou na entrevista do pai do ex-deputado Fernando Carli Filho. Não foi o comentário da volta do filho à política, nem a negação de que a carteira estava suspensa. Foi a afirmação de que logo ele e sua esposa procurariam os pais dos rapazes falecidos para conversar.
O que é que se fala para pais enlutados quando foi o seu filho o assassino? Se os “meus pêsames” mal servem em uma ocasião normal, imagine nesta. Desculpe? Erramos na educação? Entendemos o que estão passando? Se precisarem alguma coisa estamos por aí?
A Sílvia Calciolari já escreveu que deve ser duro ser a mãe deste ex-deputado. Concordo. Entre os muitos boatos que rondam o caso, um dos mais frequentes é que esta mesma mãe não estava em Curitiba quando aconteceu o “acidente” porque viajava em perigrinação na Terra Santa pedindo para uma recuração moral do filho, que já andava em caminhos tortos há algum tempo.
A família de uma das vítimas já se pronunciou indignada, com razão, com a entrevista recente. Confesso que estou muito curioso sobre como essa conversa acontecerá, se é que acontecerá. Aliás, por que ficar anunciando isto? Por que não conversaram até agora? (Como diz aquela velha música de AM: “você tem meu endereço / você tem meu telefone / mas você não passa lá”. )
Há tempo eu já sei que políticos são caras-de-pau. Mas não imaginei que fossem tanto assim.
a caça às bruxinhas
17, junho 17UTC 2009 às 2:58 pm | Publicado em educação | 7 ComentáriosTrabalhei em uma escola evangélica durante algum tempo. A escola era de porte médio, bem estruturada e com uma biblioteca cujo acervo contava com obras em boa quantidade e qualidade. (Os livros apenas eram catalogados, curiosamente, como se fossem filmes na locadora: havia aventuras, comédias, suspense, drama e… lançamentos!) Certa ocasião, a diretora resolveu eliminar da biblioteca todos os livros que fizessem referência a bruxas e fadas, afinal as narrativas pagãs estavam em desacordo com o posicionamento religioso da instituição. Tudo bem, a decisão foi coerente com a ideologia defendida, mas a procura pelos personagens proibidos executada livro a livro pela bibliotecária levou à fogueira ótimos títulos, como os da coleção da “Bruxa Onilda“.
Bruxa Onilda, em sua melhor forma
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Em uma escala maior e com critérios bem menos explícitos tem ocorrido um fenômenos de proibir-se livros e histórias em quadrinhos nas bibliotecas escolares brasileiras. Tudo começo no estado de São Paulo, quando o governo de José Serra proibiu a HQ “Dez na área, uma na banheira e ninguém no gol”. Alegou-se que a obra continha conteúdo pornográfico. José Serra chegou a afirmar que a obra era “de muito mal gosto”.

O mundo da bola segundo o “Dez na Área..”
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Depois foi a vez de “Um Contrato com Deus“, uma das obras mais famosas domaior mestre dos quadrinhos, Will Eisner, ser recolhida também em São Paulo.
A cena mais pesada de “Um Contrato com Deus”
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Seguiu-se Santa Catarina, retirando as “Aventuras Provisórias” de Cristóvão Tezza das escolas. E, quando o assunto já parecia velho, aparece agora o Paraná censurando a coletânea de contos “Amor à Brasileira”, com um texto do Dalton Trevisan e, novamente, “Um Contrato com Deus”. Isso graças a um vereador de União da Vitória que resolveu criar caso com as obras.
Muito já foi comentado sobre o assunto. [Vale muito a pena ler a "defesa" do Tezza para a sua obra, o acompanhamento que o Paulo Ramos tem feito dos casos no Blog dos Quadrinhos, a coluna do Alessandro Martins no Jornalismo FM e o excelente post do Elton.]
O que tenho a acrescentar é que os professores, orientadores, diretores, vereadores, governadores (enfim, para o bem ou para o mal, educadores) que proíbem de ler Will Eisner são os mesmos que indicam Machado de Assis para a sexta série. [Aliás, um das cenas mais eróticas que já li na vida foi o Bentinho trançar (calma sensores, eu disse "trançar" e não "transar"!) os cabelos de Capitu na infância.] E depois se queixam que os alunos não gostam de ler.
Há idade para tudo, claro. Mas este moralismo vitoriano subestima a inteligência e a (falta de) inocência de nossos alunos. E ainda são os mesmos educadores que, de consciência tranquila, talvez liguem a telvisão à noite e pensem o quanto é bom (e instrituivo e extremamente educativo) que uma novela mostre a cultura de outro país.
São pessoas que talvez, na ânsia de querer muito ensinar, esquecem de aprender. Aprender a ler um livro e uma boa história em quadrinhos, mesmo que tenha uma ou outra cena mais caliente. Na novela é o que mais há (sem a parte boa das outras obras) e ninguém reclama (ok, novela não passa na escola, mas todo mundo assiste). E assim perdem a chance, inclusive, de discutir a sexualidade de uma forma sadia.
Vejamos os quadrinhos do “Dez na Área” citados aí em cima. Há palavrão e refeferências sexuais? Sim, mas aparecem de forma pejorativa. Há referência à pedofilia no “Um Contrato com Deus”? Sim, mas o pedófilo em questão afunda em seu desespero e se dá muito mal no desenrolar do conto.
Onde quero chegar? O que se pode ler (assistir, escutar, jogar) sem mediação? Quase nada. O que se pode ler (assistir, escutar, jogar) com mediação? Quase tudo. Vamos trabalhar, colegas educadores, e deixar de culpar as pobres bruxinhas esquecidas num canto da biblioteca pelos males do mundo.
Bom, ainda vai chegar o dia em que algum educador resolva ler a Bíblia atentamente e perceba que, principalmente lá no Antigo Testamento, sexo e violência recheiam as páginas do livro sagrado. Aí eu quero ver que livro sobra na biblioteca. Chapeuzinho que se cuide.
o dia em que nevou (de novo) em Curitiba
1, junho 01UTC 2009 às 10:06 pm | Publicado em curitiba | 8 ComentáriosTags: histórias inventadas que nunca aconteceram

Hoje nevou em Curitiba. Não uma neve teórica, dessas que malmente ultrapassam o limite da definição entre a neve e a não-neve. Uma neve verdadeira, densa, pesada e abundante.
Perante o grito de alegria dos vizinhos todos pararam de praguejar contra o frio e pularam da cama, mergulhando seus pés agasalhados e as franjas do roupão na camada branca que cobria a cidade. Toda a cidade, não só as baixadas com seus gramados e telhados que costumavam sentir a geada nos dias em que o rádio noticiava o dia mais frio do ano.
Os velhos celebravam as memórias de outrora. Os adultos jovens secretamente vingavam-se de seus primos mais velhos que haviam presenciado o 17 de julho de 1975. Esta neve certamente é bem maior que aquela que prometia ser a última neve da história da cidade, principalmente depois do aquecimento global.
Alguns duvidaram, inclusive, que o aquecimento global realemente existia. Outros confirmaram sua presença: que tempo louco é esse que um dia é o mais quente da história e noutro o mais frio? Poucos, porém, realmente viam a neve diretamente. Fotografavam e filmavam, preocupados em manter o dia irrepetível para posteridade e suas histórias no lar, no bar e no youtube.
Uma criança, entretanto, não gostou de ser tirada da cama nessa hora e nesse frio. E achou a neve muito molhada e suja.
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