14 anos
25, Fevereiro 25e 2008 at 8:00 am | In histórias verídicas que realmente aconteceram | 7 CommentsNa primeira vez que vi a morte de frente eu tinha 14 anos. Obviamente já havia passado por experiências de velórios e perdas de parentes próximos queridos. Mas a liturgia (e as piadas atrás da capela onde os falecidos eram velados) envolviam e suavizavam a fria face da morte. Mas daquela vez não. Eu a encarei simplismente.
Era verão e passava as férias no litoral do Paraná, na praia de Caiobá. Logo após o almoço, decidi pegar a bicicleta e pedalar até a praia de Guaratuba para me encontrar com meus primos. Para quem não conhece a região, entre estas duas praias há uma grande baía, que somente pode ser atravessada com um ferry boat. Pois bem, pedalei até a grande embarcação e, quando ela começou a se movimentar, fiquei com minha bicicleta bem na frente. Havia algum risco de estar ali, tão perto da beirada. Mas parte da graça estava nisso. Como era bom receber o vento na cara. Se naquela época já existisse o filme do Titanic eu teria pensado que era o rei do mundo.
As gaivotas, as ondas, os barcos dos pescadores, os botos que poderiam aparecer a qualquer momento (conforme sempre se diz por ali). Eu atentamente observava a tudo. Mas nada chamava mais a atenção do que um piloto de jet ski. Provavelmente era isso que ele desejava. Ia e voltava de um lado para o outro da baía. Ora trazia uma mulher na garupa, ora uma criança, ora ia sozinho. À medida que se sentia mais confiante, começava a arriscar algumas acrobacias simples. E uma das suas brincadeiras favoritas era ziguezaguear na frente no ferry boat. Bem na minha frente.
Os marinheiros apitavam e alertavam para o perigo. Eram totalmente ignorados. Havia o risco claro do acidente. Mas parecia que parte da graça estava nisso.
Quanto o piloto (sozinho) estava mais uma vez ziguezagueando, o motor do jet ski morreu. Ele tentava dar a partida e a máquina não pegava. Seu olhar (tão próximo de mim) já mostrava desespero. Algumas pessoas que estavam próximas começaram a gritar para comandante do ferry boat para que ele parasse e evitasse uma tragédia. O jet ski continuava sem partida e o desespero no olhar era maior (mais próximo de mim). O comandante desligou os motores, mas a embarcação por inércia continuou avançando. O piloto, agora atônito, era só o desespero com seu olhar atravessando minha direção (muito mais próximo, quase ao alcance) e lentamente passou para baixo do ferry boat, junto com o jet ski.
1 minuto e ninguém retornava à tona.
2 minutos e ninguém retornava à tona.
5 minutos.
10.
Os gritos deram lugar ao cochichos que deram lugar a um estrondoso silêncio. Engraçado que, do alto dos meus 14 anos, parecia que a qualquer momento ele subiria e tomaria fôlego ruidosamente. Não parecia que ele havia morrido. Mais tarde vim a saber que não por acaso a primeira fase na aproximação com a morte era a negação (embora neste caso eu tenha pulado depois as fases da raiva, negociação e depressão, passando direto para a aceitação - afinal, a morte não era a minha).
Vinte minutos depois os pescadores mergulharam e conseguiram retirar o jet ski e o colete salva-vidas que estavam presos na parte de baixo do ferry boat. A conclusão óbvia era de que o colete havia prendido o piloto no fundo e, mesmo conseguindo retirá-lo, não houve tempo para que pudesse voltar nadando à superfície. Paradoxalmente, o colete dificultou sua salvação.
Meia-hora depois um outro ferry boat encostou ao lado e todos os veículos e passageiros trocaram de embarcação. Pedalando mais devagar do que o habitual, pude logo contar esta história aos meus primos e entender o que havia ocorrido.
O corpo do piloto foi encontrado apenas na manhã do dia seguinte, trazido pela maré na praia. Deu no jornal, era um empresário curibano, provavelmente muito rico.
Em outras vezes depois ela se aproximou. Em algumas acenou de longe. Mas quando chegou tão próxima, vista assim bem de perto, a morte foi desesperadora. Parece que esta é apenas uma de suas faces. Mas foi essa que vi com 14 anos.
espaço vital
26, Novembro 26e 2007 at 7:58 pm | In histórias verídicas que realmente aconteceram | 12 CommentsUma tarde dessas, voltava do trabalho pedalando pelas ruas de Curitiba. Com a minha Caloi 10, em sua marcha mais leve, subia uma ladeira íngreme ao lado direito da pista. Nas subidas é comum (e esperado) que os carros ultrapassem a bicicleta com uma velocidade evidentemente superior. No entanto, um automóvel com velocidade muito mais alta do que a comum (e esperada) me ultrapassou guardando uma distância de alguns poucos centímetros. Por pouco, muito pouco, não me desequilibro e não sou arremessado contra os carros estacionados ao meu lado.
No calor da emoção, veio uma vontade de xingar o motorista. Mas de nada adiantava: embora estivesse dirigindo uma Mercedes Bens conversível com o capô aberto, sua velocidade não permitiria a audição do meu grito lá de trás.
Continuei pedalando, devagar e sempre. Acompanhei visualmente o percurso do meu quase assassino. Ao chegar no final da subida, ele passou no sinal amarelo e virou à direita. Nisto percebeu que havia entrado na contra mão e, dando ré, voltou à rua em que estava. Agora ficou aguardando no sinal vermelho. A esta altura eu já havia o alcançado e tinha, agora sim, a oportunidade de xingá-lo.
Mas lembrei do conceito de assertividade e resolvi colocá-lo em prática. Me aproximei e parei a bicicleta ao seu lado. Era um senhor com os cabelos grisalhos, vestido com roupa social. Sorrindo e olhando nos seus olhos, comprimentei-o:
- Boa Tarde!
Ele assentiu com a cabeça e respondeu baixinho. Sem mais delongas e em um tom de voz bastante pacífico, continuei:
- O senhor percebeu que quase me matou lá atrás? De repente, na ultrapassagem o senhor poderia dar um espaço maior para o ciclista.
- E por um acaso você é o dono da rua?!!
- Não sou e nem é o senhor. O Código de Trânsito coloca a bicicleta como um veículo como qualquer outro. O senhor conhece o Código de Trânsito?
- …
- Dê uma olhada lá no artigo 201: ele diz que o motorista deve guardar uma distância de pelo menos um metro e meio ao ultrapassar um ciclista. E no artigo 220 diz que o carro deve diminuir a velocidade ao se aproximar da bicicleta. Artigo 201 e 220, dá uma procurada que o senhor vai encontrar o que estou lhe dizendo.
Visivelmente agitado e inquieto frente ao meu tom tranqüilo e didático, o motorista esperava o sinal abrir, olhava para os lados, para dentro e para fora do seu carro e, sem saber o que fazer e, sem argumento algum, fez o que eu sinceramente não esperava. Ele fechou os vidros! Em um carro conversível com o capô aberto! E ficou olhando sério para a frente, balançando a perna nervosamente.
O sinal abriu e ele foi embora. E eu fiquei rindo sozinho, pensando comigo mesmo que aquele tinha sido o dia em que uma Caloi 10 atropelou uma Mercedes.
déjà vu sabor limão
11, Setembro 11e 2007 at 10:12 pm | In histórias verídicas que realmente aconteceram | 5 Comments
Na época do Terceirão eu estava em dúvida entre fazer Veterinária, Engenharia Mecânica, Letras ou Geografia. Mas sabia que era alguma coisa nesta área. E sabia que deveria estudar para que a escolha fosse minha e fosse minimamente limitada pela impossibilidade de cursos mais concorridos. Por isso, além de estudar individualmente mais horas por dia do que em qualquer outro momento de minha vida, também costumava freqüentar as aulas extra-curriculares no contra-turno.
Assim, lá estava em uma terça-feira à tarde aguardando a aula de Geopolítica em uma sala que caberia ao menos uns 200 alunos. A aula era excelente (aliás, por que Geopolítica não faz parte do currículo tradicional?) e por isso me reservei ao direito de chegar uns vinte minutos antes e, como bom CDF, me posicionar estrategicamente próximo ao quadro. Nisto, chega uma menina (muito bonita, por sinal!) e senta na fila da minha frente (não, eu não estava tão na frente assim). Ela tinha um rosto familiar: eu a conhecia de algum lugar. Mas… de onde?
Não tinha dúvidas, eu a conhecia! Mas não havia nenhum traço mnêmico que me ajudasse: nenhum nome, nenhum lugar, nenhuma situação, nenhum amigo em comum… Nada. Me esforcei intensamente para lembrar e esclarecer este déjà vu, inutilmente.
Nisto a aula começa e minha atenção é dirigida para o conflito entre judeus e palestinos. Depois de uma meia hora de aula a faixa de Gaza fica um pouco de lado e vem uma imensa vontade de beber um copo de Matte Leão sabor limão. Não era sede. Eu não queria água, um refrigerante ou uma limonada. Tampouco queria um copo de chá sabor pêssego. A vontade veio bem explícita: Matte Leão sabor limão! E tal desejo era tão forte que precisei me segurar na cadeira para não levantar e correr para a cantina.
Agüentei firme até o intervalo. Contudo, assim que soou o sinal, fui o primeiro a sair da sala e chegar à cantina:
- Um Matte Leão de limão, faz favor, tia!
Destampei o copo e tomei dois grandes goles do chá gelado. Depois, à medida que caminhava pelos corredores do colégio, fui saboreando lentamente o que havia restado do produto.
De repente, um insight! A cena toda apareceu subitamente. Dois anos antes, em uma excursão do colégio com alunos de várias outras turmas… na fazenda do Matte Leão! Lá estava a menina misteriosa, assim como uma geladeira carregada com copos de Matte à vontade, apenas no sabor limão.
Incrível! Fiquei fascinado com o que acabara de acontecer comigo. Na impossibilidade de recordar quem era a menina de forma intencional, declarativa e consciente, veio à tona a vontade de consumir o produto que estava estritamente relacionado com o evento em que nos conhecemos.
Neste dia decidi que iria fazer Psicologia. E assim tentar descobrir como foi que isto aconteceu. E, ainda, por que muita gente só consegue ir ao banheiro se tiver alguma coisa para ler junto. E por que todo mundo é muito diferente entre si. E como representamos mentalmente o mundo. E o mistério da vida, o Universo e tudo mais.
Na época do curso de Psicologia descobri que o evento do Matte Leão sabor limão poderia ser explicado por um desejo inconsciente do ID ou por um pareamento de estímulos ou pelo processamento paralelo das funções mentais. Ou ainda por dezenas de outras teorias. E que estas teorias não necessariamente eram complementares e, via de regra, eram também muito discordantes entre si. A dúvida era qual delas responderia melhor minhas perguntas. Mas aí já é outra história.
quarta
25, Agosto 25e 2007 at 7:54 pm | In histórias verídicas que realmente aconteceram | 5 CommentsQuarta-feira. De longe o dia de semana mais árduo no início do meu curso de psicologia. Toda quarta trabalhava de manhã e, graças ao calendário esburacado da federal (que distribuía entre as aulas o maior número de janelas possíveis), freqüentava aulas de tarde e de noite.
22h. Ao final da última aula me dirigi ao ponto final. Corpo exausto, um único pensamento: tomar um banho relaxante quentinho e dormir o merecido sono. Para amenizar o cansaço torci para que pudesse voltar ao menos sentado no ônibus. Ao contar as pessoas na fila concluí que não ia dar. Deu. E sobrou um espaço vago ao meu lado, na última fileira, no fundão.
O motorista demorava para partir. Súbito, entra uma senhora falando alto e de modo incompreensível. “Mais uma louca no ônibus”, foi meu pensamento automático. Mas, ao contrário do que imaginava, ela não disse que poderia estar matando, que poderia estar roubando. E não pediu nada. Pagou a passagem corretamente e passou a catraca. Dirigia-se, contudo, a quase todos do ônibus, falando alto e com sílabas sem sentido. Todos a ignoravam ou repeliam. Olhei fixamente para ela. Olhei para a cadeira do meu lado. Não deu outra. Sentou-se no único banco disponível e dirigiu-se a mim:
- Adassena apia sose japite?
O ônibus partiu. A esta altura, das duas, uma. Ou tentava ignorá-la durante toda a viagem (em torno de meia hora). Ou tentava aproveitar a companhia e interagir. Tentei a segunda opção.
Algumas sílabas arranjadas se repetiam. “Apia” era uma delas. Arrisquei:
- A senhora estava na terapia?
Abriu um largo sorriso e confirmou efusivamente com a cabeça. E dado o sucesso na comunicação, inundou-me com mais algumas dezenas de sílabas. Com um pouco de paciência, tempo e muita “técnica” de tentativa-e-erro descobri que minha companhia voltava, especificamente, da terapia fonoaudiológica e que havia perdido a capacidade de falar corretamente devido a um acidente fazia pouco tempo.
Justamente nesta época na faculdade estava encantado com uma nova disciplina, a neuropsicologia. E naquela mesma semana havia estudado alguns mecanismos neurais envolvidos na linguagem. Tentei organizar meus parcos conhecimentos sobre o assunto e hipotetizei (apenas para mim, obviamente) que aquela senhora podia ser um caso de afasia motora que envolve uma lesão na área de Broca: afinal sua compreensão parecia intacta, mas havia uma visível dificuldade de expressão verbal.
Como se estivesse lendo meus pensamentos, ela tirou da bolsa vários papéis com resultados de exames. Em um deles estava claríssimo: o quadro se devia a um AVC (o popular derrame) na área de Broca do hemisfério esquerdo ocorrido dois meses antes. Ah, agora era eu que abria um largo sorriso! Havia acertado meu primeiro diagnóstico neuropsicológico com base em pouquíssimas informações. (Claro, era sorte de principiante, todos os diagnósticos posteriores foram muito mais difíceis!)
Mas compreendendo sua realidade, a conversa ficou muito mais fácil:
- Já entendi. Quer dizer que a senhora entende tudo que falam, quer falar e não consegue, por mais que se esforce?
A confirmação foi mais efusiva.
- Imagino que os outros até percam a paciência com isso e achem que é outra coisa, não é?
No que ela começou a falar muito e rápido e tirou da bolsa a foto de uma jovem. Novamente com paciência, tempo e “técnica”, entendi que se tratava de sua filha. E que estava muito irritada com o quadro da mãe e chegava a ser agressiva, o que trazia muita mágoa. Quando relatei isso, escorreu uma lágrima no rosto da senhora.
A conversa continuou e a meia hora da viagem de ônibus estava chegando ao fim, meu ponto se aproximava. Despedi-me, dizendo o quando para mim tinha sido prazeroso conhecê-la. Ela segurou firme o meu braço, pediu para que não decesse. E afirmou (a esta altura a compreensão estava muito mais facilitada) que eu havia sido uma das únicas pessoas, incluindo a família, que havia a compreendido nestes dois últimos meses. Devolvi seu olhar de gratidão e, meio contrariado, desci do ônibus.
A necessidade da expressão humana? O quanto um dia não está perdido até o seu término? A importância do conhecimento no combate ao preconceito? Minha predileção pela neuropsicologia que se afirmava? A força de um encontro? Não sei bem o que aprendi nessa quarta. Sei que nunca mais esqueci.
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