o caçador de pipas e de leitores pouco exigentes

13, maio 13-03:00 2007 às 10:33 pm | Publicado em literatura | 16 Comentários

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Toda unanimidade é burra.

Assim dizia Nelson Rodrigues. Por essa e por outras, sempre procurei fugir (ou, ao menos, não correr atrás feito um louco) dos filmes que são campeões de bilheteira e dos livros que estão na lista dos mais vendidos da (ugh!) Veja, os best-sellers. É claro que nem todos são ruins, já tive ótimos momentos com algusn best-sellers que ficaram por um bom tempo no topo das paradas, como o Senhor dos Anéis, por exemplo. Mas se o livro está lá, não sei, desconfio.

Por isso relutei em ler “O Caçador de Pipas“, do afegão Khaled Hosseini. Mas depois de várias indicações de amigos e de críticas literárias bastante favoráveis resolvi arriscar. Deveria ter ouvido o Nelson Rodrigues.

Não que o livro seja ruim. É um livro mediano, ou mesmo um pouco acima da média. Mas eu vinha embalado da leitura de dois livros excelentes, de uma narrativa complexa, profunda e envolvente: “Sábado”, de Ian McEwan e “Dois Irmãos“, de Milton Hatoun. E destas três características, “O Caçador” só é envolvente.

Pudera. Suas frases são simples. Seus capítulos (de modo geral) são curtos. E, paradoxalmente, sua história é previsível. O autor chega a defender em certa altura que a literatura deve se aproximar aos ditados populares e ao senso-comum pois estes descrevem melhor a realidade. Quer mais previsibilidade do que isto?

Eu consegui facilmente adivinhar a maioria dos próximos passos da história. E por isso o efeito em mim foi o contrário e fiz o que raramente faço: larguei o livro no meio. Depois de uns três meses retomei a leitura. Vai que, de repente, eu estava errado e o livro surpreenderia?! Nada!

Afinal, o livro é só culpa e tristeza. O narrador tentava redimir-se da culpa e nunca conseguia: para adivinhar o restante era só pensar no que de mais triste poderia lhe acontecer. E, citando novamente Nelson Rodrigues: era batata!

Outra coisa que me irritou na leitura é que ele ofendia a inteligência do leitor. Entregava o jogo facilmente e nem permitia que o leitor construisse relações na trama e atribuísse isto a si mesmo. Exemplifico (sem spoilers).

Em um determinado momento entra em uma lanchonete na cidade de Peshawar e descreve uma mesa (pagina 225):

No ponto em que as pernas da mesa se cruzaram, fazendo um X, tinha uma argola com umas bolotas de latão do tamanho de uma noz.

48 páginas depois, faz referência à mesma mesa, fazendo uma pergunta de onde era a primeira mesa e, sem que isto signifique nada à trama, respondendo!

Perto do sofá, havia uma mesinha de centro. Os seus pés se cruzavam, fomando um “X”, e, no ponto em que se encontravam, tinha uma argola metálica com umas bolotas de latão do tamanho de uma noz. Já tinha visto uma mesa assim antes. Mas onde? Então, me lembrei. Foi naquela casa de chá lotada, lá em Peshawar, na noite em que fui dar uma volta.

Se o leitor não se lembrava, paciência. Mas eu lembrava. E fui chamado de burro.

Sem contar com a crítica fraca que faz da relação ocidente-oriente (e bastante pró-americana, o que justifica parte do sucesso da obra) e com a tristeza sem fim, o livro segue assim, fácil, fácil. É como assistir a um filme. Aliás, a todo momento as linhas pedem para serem filmadas: há flashbacks, cortes nos momentos de auge… Uma “edição” bastante cinematográfica. Logo a história deverá ser sucesso na telona e duvido que suscite novos leitores, vai apenas facilitar para quem teve preguiça de lê-la (mesmo com a edição de letras maiores e figuras).

Agora quem está no topo da lista dos mais vendidos é um livro que conta a história de um cachorrinho que só apronta confusão… Dizem por aí que é muito bonito, emocionante e tals… Nessa eu não caio de novo. E aposto que o cachorro morre no final.

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