um negócio

22, maio 22UTC 2007 às 10:30 am | Publicado em educação | 5 Comentários

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Tira do genial Quino.

Já ouvi diversas vezes por aí que a Educação é, ao mesmo tempo, um bom negócio e um negócio bom. Não é de hoje que os fundamentos capitalistas estão intimamente inseridos no ensino formal, embora o FHC e o Paulo Renato tenha dado uma força enorme neste sentido ao proporcionarem a explosão de cursos de graduação e de pós-graduação no Brasil a partir da segunda metade dos anos 90. Se isto teve seu inegável lado positivo ao aumentar consideravelmente o número de jovens no Ensino Superior, talvez não se possa falar o mesmo, algumas vezes, da qualidade superior deste ensino.

O problema em tratar a Educação como negócio é que assim o aluno torna-se cliente. E, como todos sabem, o cliente tem sempre a razão. Ou seja, é o aluno que passa a ditar o que deve ocorrer e não o professor, subvertendo o processo clássico.

E disso passamos desde a indiferença e desrespeito dos alunos no Ensino Fundamental onde o professor é visto como funcionário do pai que paga a mensalidade até… como é mesmo aquela velha piada sobre o Ensino Superior? O aluno quer adquirir um diploma e a faculdade quer fornecê-lo: o professor é quem acaba atrapalhando tudo.

Sim, sou professor universitário e afirmo que boa parte das Instituições de Ensino Superior (IES) privadas quer realmente oferecer uma educação de qualidade e realmente oferece! A IES em que trabalho (graças! não posso reclamar) felizmente se inclui nesta categoria. O que faz a diferença é a valorização do professor. O profissional tem seu trabalho reconhecido e lhe é atribuído o merecido crédito. Uma pena é que existam IES onde é o aluno quem manda e há menos pesar na substituição de um professor com anos de casa do que na perda de um aluno no início do curso.

É claro que aluno deve ser ouvido. Mas a orientação do curso deve ser mais pautada pela coordenação pedagógica do que pelo pessoal do marketing. Afinal, assim como professor não deve ver o aluno como um amigo (isto é até desejável, mas em outro contexto), não deve vê-lo também como um cliente. Ele é cliente da IES que freqüenta, assim como o professor é funcionário da mesma IES. A relação, portanto, não é e não deve ser direta no que tange ao contrato financeiro. E, preferencialmente, deve ser direta no contrato pedagógico.

Caso contrário, uma aula fica parecendo uma venda. E numa venda o consumidor só compra o que quer e se não gostar tem todo o direito de reclamar para o PROCOM. E aí vai embora toda e qualquer exigência e disciplina que auxiliaria num verdadeiro processo de formação. E outra: o consumidor fica esperando o conhecimento chegar até ele, quem deve se esforçar é o vendedor que está fornecendo o produto e não quem está comprando, afinal, está pagando.

Usando a feliz terminologia do Paulo Freire, esta é a tão (mal) falada educação bancária. Mais tradicional que qualquer caixa de aveia. Se a Educação continuar a ser tratada como a transferência de conhecimento de uma conta para a outra, quem é que paga o CPMF?

5 Comentários »

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  1. bah, ótimo post.

    Como estava conversando com um primo meu, também professor, hoje em dia o papel do professor em certos lugares, via de regra, só é preservado por seu “tamanho” e imposição na sala (coitados dos mirradinhos e mulheres). Em outras palavras, o papel pedagógico, o lugar de professor, o tipo de atitude que um aluno deve ter para com um professor, foi para o espaço

  2. óbvio que não estou falando do eixo permissividade x autoritarismo, mas do papel do professor

  3. Muito bom o post… Gostei do texto😀

    A única resalva que faço é que o aluno deve exigir que as aulas, se não são “gostaveis” sejam pelo menos acessiveis. Afinal, tem muito professor que dá aulas herméticas, ou fazem questão de tornar o curso impossivel para os alunos. Alguem com curso superior deve sim compreender textos tidos como “dificeis” e coisas afins, contudo o professor deve dar instrumentos para que ele consiga fazer isso. Se não pode ser que o aluno saia como entrou no curso: não entendendo patavinas, e ainda falando que tal disciplina não serve para nada…

    mas é apenas uma elocubração extra, o texto está ótimo🙂

    beijos

    ps.: sobre o teu comentário lá no metamorfose, não sei se tu leste este artigo, mas acredito que podes te interessar por ele:
    http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=46680

    e se quiseres ler a entrevista que realizei sobre música, me da um toque, ok? bjo

  4. […] alma do negócio, depois de Descartes todo mundo sabe que a alma separou-se do corpo e, por isso, o marketing não precisa ser coerente com o que o corpo da empresa faz; basta parecer […]

    • Infelizmente existe pessoa que não valorizam seus valores intelectuais,pois as instituições escolar trabalham levando em conta a temática da formação, no qual fundamenta as novas teóricas de ensino-a aprendizagem, e está inserida dentro de uma ótica mais moderna da concepção, no processo contínuo de aprendizagem.


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