o palhaço e o frentista

17, junho 17UTC 2007 às 9:28 am | Publicado em cotidiano | 3 Comentários

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CARtoon de Andy Singer

“Quanto mais pobre é o circo, mais enfeitado é o palhaço.”

Há quem insista sobre a importância de usar um crucifixo no peito, terno e gravata no mercado, carro para comprar um pãozinho fresco e título de doutor para que mencionem seu nome.

Particularmente acredito que todos deveriam andar apenas de pijamas, pelo seu evidente conforto. Mas, sem radicalismos, confesso que a gravata sempre me deu, literalmente, um nó na garganta.

Engraçado como quem realmente é bom no que faz não se preocupa em querer parecer bom. Recentemente assisti a um simpósio sobre neurobiologia da memória, que contava com os maiores nomes da área no Brasil e do exterior. Todos que apresentaram seus trabalhos eram, sem excessão, pós-doutores. Em dois dias de simpósio se ouvi a palavra “doutor” duas vezes foi muito. Lá os pós-doutores eram tratados por Ivan, Jorge, Gilberto… E não usavam gravata (às vezes nem camisa social).

Em uma ocasião, uma senhora com cara de tia-avó, roupas pra lá de comuns e mais de 70 anos nas costas pegou o microfone. Tudo levava a crer que ela falaria da importância de se usar blusa fora de casa para não pegar uma gripe. Indo um pouco mais além, falou sobre a internalização de receptores glutamatérgicos no neurôno pós-sináptico durante a depressão de longa duração. Um achado que ela mesma descobriu em suas pesquisas.

Esta capacidade de surpreender considero muito mais importante que uma (muitas vezes falsa) impressão inicial baseada na roupa, no automóvel ou no título. Impressionante como muitos médicos, advogados e engenheiros se ofendem quando não são chamados de doutor sem, às vezes, sequer terem feito uma especialização. Enquanto que os verdadeiros doutores (os que passaram pelo doutorado) via de regra não estão nem aí para o título.

Aliás, quem quiser um título desses basta abastecer o carro e ouvir do frentista:

– Vai quanto de gasolina aí, doutor?

3 Comentários »

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  1. Concordo com você. Estou no meio acadêmico e vejo isto claramente. Tenho colegas com grande reputação em seu meio que andam com a camisa para fora da calça! Já outros, experientes na arte do puxa-saquismo dão aulas de paletó e gravata. Mas o pior é que na folha de pagamentos da instituição o que conta ainda é o título.

  2. boa, heheh

    é por isso que sou partidário da bermuda e do chinelo.

    e é aquela velha história: quanto menos competência para rechear o indivíduo, maior aparência é necessária… tanto que temos hj em dia gigantescos figurões bem-sucedidos que só são aquilo mesmo que aparentam: figuras, sem conteúdo por trás.

  3. Adorei!!!

    Cuidar da aparencia é muito mais do que usar roupas da moda. Tirando os cuidados pessoas e certos exageros agressivos, o bom mesmo é sentir-se a vontade nos ambientes em que se está.

    Prefiro ser conhecida como aquela está sempre vestindo um sorriso, do que aquela que está sempre de salto alto.

    bjos


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