vida e morte terceirizada

25, julho 25-03:00 2007 às 2:22 pm | Publicado em cotidiano | 4 Comentários

Nos últimos 30 dias estive às voltas com três casamentos. Em dois sábados consecutivos fui padrinho de grandes amigos. E, por ocasião das Bodas de Algodão, revi a cerimônia e a festa do meu próprio casamento.

Os três casos, cada um a seu modo, passaram ao largo (ainda bem!) de uma grande tendência da sociedade ocidental contemporânea: a terceirização e a mercatilização dos rituais de passagem. Tanto cerimônias religiosas como o batismo, a primeira comunhão e o casamento, como profanas como o aniversário e a formatura podem ficar sobre total responsabilidade uma empresa que cuide de todos os detalhes da festa. Desde que se pague um preço “justo”, evidentemente.

Vejamos o exemplo do casamento. Algum tempo atrás (e nem a tanto tempo assim), os responsáveis pela festa eram o próprio casal e seus familiares. Via de regra, os espaços domésticos e arredores (como o paiol, por exemplo) serviam para os comes e bebes e para o baile. Cada detalhe era pensado, escolhido e executado pelo seu significado de acordo com o substrato cultural/social/comunitário das famílias.

Hoje os detalhes devem ser escolhidos apenas nos catálagos dos profissionais da área. E não são poucos os profissionais: cerimonial, costureira, cabeleireiro, fotógrafo, filmador, floricultor, decorador, chef de cozinha, músico, agente de turismo e por aí vai… E quem dita as regras são os próprios profissionais. Os noivos tem pouca opinião no processo, afinal qualquer quebra de protocolo é considerada uma infração gravíssima. E não estou falando de normas religiosas (a Igreja Católica de Curitiba chegou a proibir certos exageros anti-litúrgicos), mas regras arbitrárias como a distância e o lado da igreja em que deve estar determinada daminha de honra. O que torna boa parte dos casamentos praticamente idênticos entre si.

Até o último ritual de passagem, o velório, tem perdido características idiosincráticas para se tornar uniforme. O que era feito em casa, com orações, café, bolo e brincadeiras das crianças atrás da casa hoje ocorre no frio espaço da funerária. Assim como a própria morte: usual que ocorra no ambiente gélido, solitário e asséptico do hospital em detrimento da calorosa companhia do familiares nos últimos momentos.

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