déjà vu sabor limão

11, setembro 11UTC 2007 às 10:12 pm | Publicado em histórias verídicas que realmente aconteceram | 5 Comentários

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Na época do Terceirão eu estava em dúvida entre fazer Veterinária, Engenharia Mecânica, Letras ou Geografia. Mas sabia que era alguma coisa nesta área. E sabia que deveria estudar para que a escolha fosse minha e fosse minimamente limitada pela impossibilidade de cursos mais concorridos. Por isso, além de estudar individualmente mais horas por dia do que em qualquer outro momento de minha vida, também costumava freqüentar as aulas extra-curriculares no contra-turno.

Assim, lá estava em uma terça-feira à tarde aguardando a aula de Geopolítica em uma sala que caberia ao menos uns 200 alunos. A aula era excelente (aliás, por que Geopolítica não faz parte do currículo tradicional?) e por isso me reservei ao direito de chegar uns vinte minutos antes e, como bom CDF, me posicionar estrategicamente próximo ao quadro. Nisto, chega uma menina (muito bonita, por sinal!) e senta na fila da minha frente (não, eu não estava tão na frente assim). Ela tinha um rosto familiar: eu a conhecia de algum lugar. Mas… de onde?

Não tinha dúvidas, eu a conhecia! Mas não havia nenhum traço mnêmico que me ajudasse: nenhum nome, nenhum lugar, nenhuma situação, nenhum amigo em comum… Nada. Me esforcei intensamente para lembrar e esclarecer este déjà vu, inutilmente.

Nisto a aula começa e minha atenção é dirigida para o conflito entre judeus e palestinos. Depois de uma meia hora de aula a faixa de Gaza fica um pouco de lado e vem uma imensa vontade de beber um copo de Matte Leão sabor limão. Não era sede. Eu não queria água, um refrigerante ou uma limonada. Tampouco queria um copo de chá sabor pêssego. A vontade veio bem explícita: Matte Leão sabor limão! E tal desejo era tão forte que precisei me segurar na cadeira para não levantar e correr para a cantina.

Agüentei firme até o intervalo. Contudo, assim que soou o sinal, fui o primeiro a sair da sala e chegar à cantina:

– Um Matte Leão de limão, faz favor, tia!

Destampei o copo e tomei dois grandes goles do chá gelado. Depois, à medida que caminhava pelos corredores do colégio, fui saboreando lentamente o que havia restado do produto.

De repente, um insight! A cena toda apareceu subitamente. Dois anos antes, em uma excursão do colégio com alunos de várias outras turmas… na fazenda do Matte Leão! Lá estava a menina misteriosa, assim como uma geladeira carregada com copos de Matte à vontade, apenas no sabor limão.

Incrível! Fiquei fascinado com o que acabara de acontecer comigo. Na impossibilidade de recordar quem era a menina de forma intencional, declarativa e consciente, veio à tona a vontade de consumir o produto que estava estritamente relacionado com o evento em que nos conhecemos.

Neste dia decidi que iria fazer Psicologia. E assim tentar descobrir como foi que isto aconteceu. E, ainda, por que muita gente só consegue ir ao banheiro se tiver alguma coisa para ler junto. E por que todo mundo é muito diferente entre si. E como representamos mentalmente o mundo. E o mistério da vida, o Universo e tudo mais.

Na época do curso de Psicologia descobri que o evento do Matte Leão sabor limão poderia ser explicado por um desejo inconsciente do ID ou por um pareamento de estímulos ou pelo processamento paralelo das funções mentais. Ou ainda por dezenas de outras teorias. E que estas teorias não necessariamente eram complementares e, via de regra, eram também muito discordantes entre si. A dúvida era qual delas responderia melhor minhas perguntas. Mas aí já é outra história.

5 Comentários »

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  1. Caramba! Isso que eu chamo de epifania!!!

    Que barato!

    Beijos

  2. hahaha
    Adorei, Leandro. É realmente um bom motivo para escolher Psicologia.
    Mas fiquei curioso sobre como você explicar o ocorrido hoje, agora que é psicólogo.
    Abraço.

  3. Eu não me lembro qual foi o exato dia q decidi fazer psicologia, tvz tenha sido qndo eu descobri q a faculdade oferecia bolsa… haha brincadeirinha. Soh sei q não troco por nenhum outro curso, não mesmo!

    Uma teoria unificadora seria ótimo se não existisse o Burrus com seus emparelhementos de estímulos..

    Abraço

  4. Essa eu ouvi em sala, hehe!
    abraço!

  5. Robson, respondendo a sua pergunta, diria que há diferentes processamentos cognitivos ocorrendo em paralelo ao mesmo tempo. E muito deles (a maioria) tem uma atividade (um potencial de ação) que não é forte o suficiente para tornar-se consciente.

    Assim, acredito que os rastros mnemônicos daquela viagem (que não era recordada há tempos) estavam bastante enfraquecidos o processo de sua reconstrução definitivamente foi não consciente (para não falar em inconsciente, que é outra coisa…)

    Além disso a ansiedade (de querer descobrir logo o mistério, por exemplo) prejudica a memória de trabalho e com isso o seu acesso à memória episódica.

    Ganhou uma resposta cognitivista, heheh


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