a ciência da violência

28, outubro 28UTC 2007 às 10:20 am | Publicado em psicologia | 6 Comentários

adao.jpg

Charge do Adão, daqui.

Finalmente assisti o obrigatório “Tropa de Elite“. Não vou fazer uma crítica sobre o filme, afinal elas abundam por aí (o Catatau tem uma excelente, assim como uma contra-crítica com filosofia de verdade a uma crítica pseudo-filosófica). Vou limitar-me a algumas impressões e raciocínios pós-filme.

Uma vez “Pixote” foi um filme violento. Recentemente o assisti novamente (assim como ao “Quem Matou Pixote?“, que são filmes para serem vistos em dupla) e me pareceram hoje bem água-com-açúcar. Mesmo o relativamente recente “Cidade de Deus” perde seu grau de violência se comparado com a “Tropa de Elite”.

Mas não foi a violência do filme que me assustou durante a sessão (sim, assisti no cinema e recomendo: o som ficou espetacular!). O que me assustou mesmo foi o comportamento de vários adolescentes toda vez que aparecia uma cena de tortura envolvendo sacos plásticos (estas cenas aparecem pelo menos umas cinco vezes). Os adolescentes riam, gargalhavam.

Medo.

Associado a isto, a frase que abriu o filme foi emblemática e pouco comentada por aí (alguém aí tem a frase exata?). O psicólogo americano Stanley Milgram afirma que uma das maiores contribuições da psicologia social é a demonstração de que o ambiente determina o comportamento humano.

Milgram afirma isto com propriedade após seu célebre experimento dos anos 60, nomeado de “Obediência à Autoridade”. O pesquisador solicitava a voluntários que administrassem quantidades de choque gradativas a outros voluntários do experimento a cada vez que estes errassem respostas de uma memorização. Ocorre que os voluntários que recebiam os “choques” eram atores que simulavam dor reclamando, chorando e gritando. Os voluntários que administravam a suposta punição conseguiam ouvir as queixas. Quando titubeavam e ameaçavam desistir, eram lembrados: “o experimento precisa que você continue!”. Dois terços dos participantes administram choques de até 450 mV, momento em que o ator simulava a sua morte.

Isto explicaria, entre outras coisas, as práticas nazistas, as torturas e execuções presentes no filme e comportamento de agentes penitenciários. Sobre este último, há outro famoso experimento, agora da década de 70, de Philip Zimbardo, conhecido como “The Stanford Prison Experiment“. Nele estudantes universitários “normais” eram convidados a participar de um evento fictício em que representariam durante algum tempo prisioneiros e carcereiros. Os últimos eram munidos apenas uma lista de ordem severas e liberdade para agir sem infringir estas normas. Depois de poucos dias já haviam torturas reais e o experimento teve que ser cancelado.

Tais experimentos mostram a clara influência do ambiente sobre o comportamento de pessoas comuns. O que preocupa é que, principalmente após o 11 de setembro de 2001, a violência e a tortura tem sido banalizadas, amplamente apresentadas na mídia, aceitas e até mesmo em algumas situações valorizadas. O que, se não isso, explicaria as risadas dos adolescentes perante cenas de tortura?

Jack Bauer, por exemplo, em apenas 24 horas consegue arrancar incontáveis confissões mediante métodos nada tradicionais. Mesmo os super-heróis, que já foram baluartes da moral e dos bons costumes, hoje não exitam em esmurrar e dar cabo dos seus inimigos sem qualquer remorso: uma das práticas mais comuns do Wolverine, por exemplo, é fatiar primeiro e perguntar depois.

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O Batman pós-Frank Miller por Aragonés

O caro leitor pode argumentar que os experimentos de Milgram e de Zimbardo estão relacionados com a autoridade e não com a a presença de cenas violentas na cultura de massa. Há estudos, entretanto, que mostram que a simples visão de comportamentos violentos desencadeia comportamentos violentos. A Paula Gomide, aqui em Curitiba, publicou um importante estudo, por exemplo, que mostra que adolescentes após assistirem um filme violento apresentam significativamente muito mais faltas e agressões durante um jogo de futebol do que adolescentes jogando bola depois de um filme não-violento.

Se os estudos estão corretos, a violência cada vez mais banalizada só tenderá a comportamentos mais violentos nos diversos contextos.

Eu, que ainda acredito que a não-violência ativa de Gandhi pode nos levar mais longe, me senti um velho deslocado ao ouvir as gargalhadas dos adolescentes descolados no cinema. Quem sabe da próxima vez, ao invés de assistir a “Tropa de Elite” eu prefira assistir a “Tropa de Artrite”.

6 Comentários »

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  1. Justamente, o que assusta é a banalização da violência somado à impunidade, praga que assola este país.

    Renato

  2. Deixo-lhe a sugestão de leitura do texto “Tropa de elite, o encanto da tortura”, em http://www.lainsignia.org/2007/octubre/cul_036.htm
    Abraço.

  3. Belíssimo post. Inclusive eu estava procurando um experimento q não sei se é de um desses caras: trata-se de um outro em que um indivíduo aplica punição no outro, e as punições aplicadas são maiores quanto mais o indivíduo que pune não ouve as reações do indivíduo punido. Vc lembra?

    É, quanto aos adolescentes, talvez seja isso mesmo. Nós é que estamos interpretando errado o filme. O negócio é descer lenha na galera, não importa como. Suspender o juízo está se tornando algo raro, e bem pouco valorizado.

    Bom, por fim ficou muito legal teu post. Vc falou tudo sobre o filme sem comentar sobre ele.

  4. Catatau, provavelmente o experimento deve ser este do Milgram, sim. A versão que dei é bem simplificada. Na realidade 2/3 dos que conseguiam ouvir as reações dos que eram punidos continuaram até a suposta morte. Mas a quase totalidade dos que não ouviam nada chegou até a morte. O que os olhos não vêem, o coração não sente.

  5. bem bom o texto!
    pq vc não manda alguma coisa pro jornale, pra ver se eles não publicam tipo coluna?
    abraço!

  6. […] aqui […]


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