a mulher que escreveu a bíblia

25, março 25UTC 2008 às 9:54 am | Publicado em literatura | 4 Comentários

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Sempre gostei da prosa do Moacyr Scliar. Ele tem um texto direto, bastante fluido, bem humorado que, para o leitor desavisado, pode até soar como superficial. É um texto fácil de ler (o trabalho diminuido do leitor para lê-lo deve estar relacionado com o trabalho aumentado do autor para escrevê-lo), mas nem por isso subestima a inteligência. Entre as linhas claras ditas, ficam infindáveis meandros não ditos…

É assim “A Mulher Que Escreveu a Bíblia“. Um romance fininho que, assim como um jogo fácil de golfe, pode ser levado a cabo em poucas tacadas (nunca joguei golfe, mas imagino que deve ser assim a coisa toda). Como nas colunas que o autor escreve às segundas na Folha de S.Paulo, o livro é uma ficção a partir de uma notícia real de jornal. Na verdade uma declaração de Harold Bloom de que a Bíblia poderia ter sido escrita por uma mulher escriba na época de Salomão. Assim, é um relato em primeira pessoa de como a Bíblia foi escrita.

Mas Scliar usa do artifício de uma suposta terapia de vidas passadas para rever todo o material bíblico e as aventuras da protagonista com uma linguagem moderna. Ao contrário de uma exegese moderna, que pretende ler o texto sagrado com os olhos da época, nesta obra a Bíblia é lida (e escrita) ao contrário, com os olhos de hoje. Justamente pela mulher mais feia do harém de Salomão que possui a compensação de ser a única letrada entre todas as mulheres (os feios sempre tem alguma compensação). Tudo sem perder o rigor histórico. É até bem possível que o escritor sagrado original não tenha sido tão… sagrado, como supõe o livro.

Entre o passado e o presente. O sagrado e o profano. A beleza e a feiúra. A linguagem chula e a formal. A linguagem oral e a escrita. O interior e a capital. O masculino e o feminino. A obra toda é uma construção e desconstrução destas dualidades. E dos meandros entre elas.

4 Comentários »

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  1. Nunca li nada do Moacyr Scliar, fiquei curioso, da próxima vez que for até a biblioteca vou procurar algum livro dele. Eu assisti o filme Sonhos Tropicais, que é uma adaptação de um livro do Sciliar, eu achei a história do filme muito boa, sobre a revolta da vacina. Acho que sempre teremos algo p/ ler, às vezes me sinto mal entrando na biblioteca pública e vendo todos aqueles livros, grande parte nunca conseguirei ler.

  2. Nunca li Moacyr Sciliar (também), uma mulher escreveu a biblia? hummmm… Será que foi a Maria Madalena??? Teorias, são legais, pois não são exatas e permitem viajar na maionese. que é uma beleza!

    “(os feios sempre tem alguma compensação)” ahauhaaa… eu sou feia, mas sou legal!!! Boa manobra, mas discordo, não existe pessoas feias e sim chatas, mal humoradas, antipáticas, pessoas assim são feias! O resto pode não estar dentro dos padrões, mas e dái? O importante é ser feliz, mesmo que isso doa! Pessoas alegres e felizes são bonitas, mesmo em dias ruins, desde que não briguem comigo, pois aí ficam feias! ahushasuaaaa…

    (nossa, nenhuma citação sobre o tal Catatau nesse tópico. Que estranho, confesso ter dado uma olhada em outras postagens e sempre tem referência ao Catatau, esse não…:) O blog do Catatau é muito complexo para a minha mente que só sabre fazer postagens que atraiam tarados do Google. ahushauhsuasaaaa…)

    Gostei desse texto, simples, leve e divertido. ^^

  3. Aconselho para quem nunca leu ler qualquer coisa do Moacyr Scliar. Vale muito a pena. Sugiro começar com este ou com seu livro de crônicas, que é melhora ainda!

    Sobre bibliotecas grandes, eu fiquei triste no dia em que descobri que minha vida não seria suficentemente grande para ler os bons livros que queria. Nem os essenciais (desses que indicam para ler antes de morrer). Hoje faço pequenas listas mentais dos que quero ler, mas geralmente as ignoro perante o que está ao alcance.

    Quanto a esta idéias sobre a feiúra, padrões e estar bem consigo mesmo… bom, isto é bastante lembrado no livro. Volto a aconselhar a leitura (como se conselho fosse bom).

    E o Catatau? Eu sempre cito porque é bom. Confesso que também não entendo muito, mas não deixa de ser bom, hehehe

    Há braços em todos!!!

  4. Valeu pela indicação, abraço!


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