pelos meandros insondáveis da genética

4, abril 04UTC 2008 às 8:03 pm | Publicado em literatura | 3 Comentários

Diz o velho deitado que existem coisas que se pensa, mas não se diz e existem coisas que se diz, mas não se escreve. O último livro do Cristovão Tezza, “O Filho Eterno“, é o corajoso registro escrito do pensamento. Mas do que isto, é o pensamento explícito do personagem com todos os seus defeitos e virtudes. O personagem, no entanto, é o próprio autor que conta (em terceira pessoa) o seu relacionamento com seu filho com Síndrome de Down. E aproveita para revistar a própria biografia pessoal, deixando o leitor sem saber onde acaba a realidade para começar a ficção. Muito mais sobre o pai do que sobre o filho, a obra expõe o tema da paternidade e da deficiência mental de maneira crua, impiedosa e totalmente distante de qualquer convenção. E expõe o autor de jeito que, fico pensando, se não seria até mais fácil sair nú em uma revista…

“Parece que o pai havia entrado em outro limbo do tempo, em que o tempo, passando, está sempre no mesmo lugar. Uma estabilidade tranqüila, uma das pequenas utopias que todos com um pouco de sorte vivem em algum momento de suas vidas. O poder maravilhoso da rotina, ele pensa, irônico. Transforma tudo na mesma coisa, e é exatamente isso que queremos. Mas há uma razão: o seu filho não envelhece. E além da cabeça, que é sempre a mesma, pelos meandros insondáveis da genética ele crescerá pouco, vítima de um nanismo discreto. Peter Pan, viverá cada dia exatamente como o anterior – e como o próximo. Incapaz de entrar no mundo da abstração do tempo, a idéia de passado e de futuro jamais se ramifica em sua cabeça alegre; ele vive toda manhã, sem saber, o sonho do eterno retorno. ” (p.183)

Assim como em seu livro anterior, um atrativo a mais é reconhecer as regiões de Curitiba e sentir orgulho de ter um dos maiores escritores brasileiros da atualidade morando aqui pertinho de casa. Se há coisas pensadas que corajosamente são escritas, estas merecem ser lidas.

3 Comentários »

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  1. Eu li nessa semana o livro O Fotógrafo, do Cristovão Tezza. Eu achei um grande livro, me perdia pela cidade acompanhando os personagens que ora caminhavam pela XV, pela reitoria, pelo cine luz etc. Quanto ao seu último livro: Filho Eterno, eu ainda não pude ler, vou acabar tendo que comprá-lo, já que a biblioteca pública anda com seu acervo desatualizado. Mas ainda acho Trapo o melhor livro do Cristovão. Trapo me faz lembrar da geração beat, de john fante, de Bukowski. Acabei lendo seu post antigo sobre o livro O Fotógrafo.

  2. Trapo eu ainda não li, está na minha lista de próximos. Mas o “Filho Eterno” achei melhor que “O Fotógrafo” e que “Juliano Pavolini” (que, por sinal tb é muito bom e passa pelo Colégio Estadual e pela rua Riachuelo)…

    A crítica tem elogiado muito o “Filho” e tem tido que é o seu melhor livro. Não duvido, não…

  3. Uau, uma bela passagem, sem dúvida.

    Faz lembrar todos aqueles “devires” que carregam o deficiente: tudo aquilo que alçamos como ideal, e rotineiramente jogamos para escanteio: amar sinceramente, ser sincero nas emoções, corresponder palavra e pensamento…


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