terminaram as eleições municipais

26, junho 26UTC 2008 às 10:45 pm | Publicado em curitiba | 8 Comentários

As eleições municipais se aproximam. Mas Curitiba está muito longe ainda do clima de gincana que (quase) toma conta da cidade quando as campanhas eleitorais tomam corpo (principalmente com a chegada do horário gratuito na televisão). Mas já sei quem será o próximo prefeito.

Lamentavelmente.

Minha conclusão é baseada no último livro do sociólogo e cientista político Alberto Carlos Almeida. O autor toma carona no sucesso do “A cabeça do brasileiro” (em que demonstra a partir de pesquisa quantitativa a teoria do Roberto DaMatta) e apresenta em “A cabeça do eleitor” como é o comportamento do eleitorado tupiniquim em eleições majoritárias a partir dos resultados dos últimos pleitos. Seus resultados demonstram que, diferentemente do que muitos pensam, o brasileiro não tem um voto aleatório e/ou caótico. Ao contrário, possui seis fatores que determinam para quem será seu voto (e é muito difícil contestar a validade de tais fatores: cada um isoladamente, quase descreve totalmente o resultado das eleições municipais das capitais brasileiras quatro anos atrás; juntos, então, são imbatíveis, conforme consta no livro).

Pois bem, caso não ocorra nenhuma intervenção sobrenatural e/ou alienígena, Beto Richa será re-eleito prefeito.

Vejamos como está nosso atual prefeito do PSDB perante os fatores que decidem uma eleição em comparação com sua principal adversária, Gleisi Hoffmann do PT (segundo a última pesquisa).

1. A avaliação do governo;

Almeida demonstra que não há marketing e campanha que derrube um governo com aprovação maior do que 60% da população (ou que re-eleja um governo com esse índice de desaprovação). Pois bem, segundo a última pesquisa do Ibope, Richa possui 82% de aprovação!!! Apenas 12% desaprovam a atual gestão. Se a lógica do “time que está ganhando não se mexe”, os 12% que não gostam da atual gestão, além de precisarem convencer os outros, terão suas forças divididas nos vários candidatos de oposição, o que sobra pouco para a Gleisi. Taí o principal triunfo do prefeito.

2. A identidade dos candidatos;

O eleitor só vota, de acordo com Almeida, apenas em quem conhece, em quem tem uma imagem clara. Mesmo que seja no famoso “rouba, mas faz” (não resisto ao trocadilho do e-mail do Maulf: maluf@masfaz.com.br). Bom, o Beto Richa é claramente situação, governista e fazedor de obras. É isso que a campanha propaganda oficial da cidade sempre mostra: um capacete de obras. O prefeito deixou todas os binários, reformas de praças, creches e postos de saúde para inaugurar próximo da eleição, numa explícita manobra eleitoreira (provalvemente bem sucedida). Gleisi, ao contrário, não disse ainda claramente a que veio. Sua marca pode até ficar mais forte durante a campanha, mas o outro já saiu na frente.

3. O nível de lembrança (recall) dos candidatos;

Todo mundo sabe quem é o prefeito. E muitos quem foi seu pai. O nível de conhecimento é alto, diferentemente da Gleisi. Embora já tenha participado de uma eleição anterior para deputada federal senadora com um bom desempenho (e, diz a lenda, lançando moda até nos cortes de cabelos femininos), é ainda um rosto novo na política. Vai precisar provavelmente de mais disputas para se tornar conhecida.

4. O currículo dos candidatos e se eles utilizam-no para mostrar ao eleitor que podem resolver o principal problema que aflige o eleitorado;

Não sei qual é o principal problema de Curitiba (ou o que os curitibanos vêem como maior problema, o que, neste caso, é mais importante). Segurança? Transporte? Saúde? Mas o currículo do Beto parece demonstrar mais experiência (mesmo assim, fraquinho) do que o de Gleisi, cuja função principal desempenhada foi o de diretora da Itaipu. A não ser que o principal problema da cidade seja a energia, o que acho que não é o caso.

5. O potencial de crescimento dos candidatos, que combina com a rejeição de cada um deles com seu respectivo nível de conhecimento;

Embora a Gleisi tenha uma rejeição baixa (4,4%) e um potencial de crescimento a aceitação do Beto Richa parece limitar esse percentual (somado a uma rejeição bastante próxima, a de 6,1%).

6. O fato de não ser possível contar com os apoios politicos, ou seja, popularidade e simpatia não se transferem.

Ou seja, no nosso caso, por mais que o Lula seja popular isso não facilita muito as coisas para o PT daqui. O mesmo vale sobre o apoio do Requião para o outro candidato.

Ou seja, segundo os fatores apontados por Almeida, Beto Richa já está eleito, independente da qualidade do marketing de sua campanha e da campanha dos adversários.

Lamentável, repito. Uma porque a ciência (ciência política, mas ciência) acaba de desmistificar a graça que havia em torcer por algum candidato. Duas porque não queria uma re-eleição desse prefeito.

É só mais um da lista de prefeitos que trabalha a cidade apenas em sua fachada, criando (muito bem, diga-se de passagem) uma imagem bonita. Mas eu não quero uma imagem, quero uma cidade. O rótulo de Capital Ecológica, por exemplo, embora não seja o slogan atual (mas ainda ecoe na imaginação do brasileiros) é altamente contrastante com o fato de que a cidade possui o segundo rio mais poluído do país. Que o modelo de transporte coletivo (outrora tão invejado e copiado) já não comporta seus usuários e a política principal é de abrir vias e privilegiar o transporte individual motorizado. Que os bairros distantes do centro seja negligenciados. E por aí vai…

(Justiça seja feita, a educação na cidade foi avaliada como a melhor nas capitais. Mas é isso ter um olho em terra de cego. E com tanta obra, com tanto tapa-buraco por aí, fico pensando no quanto a educação não seria melhor se a verba, ao invés de ir para o carro, fosse para escola.)

A tempo, esclareço que, se não vou votar no Beto Richa, tampouco votarei na Gleisi, principalmente depois de sua nova aliança. Escolherei entre algum candidato menor que represente melhor minhas crenças políticas (aí é crença mesmo, porque a ciência não me faz necessariamente pragmatista).

Enquanto isso, espero um prefeito de verdade, como o Enrique Peñalosa que transformou Bogotá e poderia inspirar muita gente por aqui. Nas próximas eleições.

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8 Comentários »

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  1. Belo texto, Leandro. Como o Enrique Peñalosa sequer tem parentes por aqui estou em dúvida cruel: não sei se vendo ou se anulo meu voto! Está cada vez mais difícil participar desta política canalha e suja.

  2. Ainda bem q to no Japão…

  3. Simples assim, grande post. Aqui em colombo provavelmente teremos reeleição também.

  4. Parece que aqui em Gpuava a cena se repete tbém…rs

  5. Brilhante leitura da realidade Curitibana.
    Fiquei com vontade de pegar o bonde e pedalar dia 26 com vocês.
    Aqui em são Paulo, a realidade é semelhante. Temos aqui 4 cenários apopléticos.
    Renato, em 2008, não sustente parasitas, anule seu voto.

  6. […] dificilmente a situação seja diferente do que a frase afirme (confome já cantei aqui anteriormente), há bons motivos para não votar nele conforme a maioria e tocá-lo da […]

  7. […] As eleições municipais deste ano já haviam terminado há tempos. Mas as eleições municipais de 2012 acabaram de começar. […]

  8. Ótima charge 😀 , o político do quadrinho é o que 95% dos políticos brasileiros fazem hoje em dia.


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