toda vez que eu viajava

25, julho 25-03:00 2008 às 4:37 pm | Publicado em histórias verídicas que realmente aconteceram | 4 Comentários

Era numa dessas viagens de ônibus com mais de 9 horas de duração. Como tem acontecido de uns tempos pra cá, o motorista ligou um DVD para entreter os passageiros.

Isso de colocar televisões nos ônibus eu discordo. Um filme ligado impede (ou quase) uma boa conversa, uma boa leitura ou um bom sono. Descontado a qualidade das obras selecionadas, geralmente os aparelhos são ruins e o áudio (em português e sem legendas) impede a compreensão do filme (além de uma boa conversa, uma boa leitura e um bom sono). Mas a hipnótica atração da tevê captura o olhar em sua luz azul, é muito difícil resistir.

Pois bem, desta vez não era um filme. Era uma série de clipes musicais com o título mais ou menos assim: “O Melhor da Música Sertaneja”. Pronto, conseguiram piorar a situação! Ninguém perguntou o gosto musical dos passageiros e lá estava o menu inicial do DVD com um trecho de “Menino da Porteira” do Sérgio Reis:

“Toda vez que eu viajava pela Estrada de Ouro Fino /
de longe eu avistava a figura de um menino /
que corria abrir a porteira e depois vinha me pedindo /
toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo.”

O motorista deu o play e seguiu viagem. O melhor de se criar expectativas ruins é que elas são muito facilmente superadas. O DVD era muito bom! Um dos melhores que já assisti em um ônibus (o que também não é grande coisa). Mesmo que tivesse alguma dupla de qualidade duvidosa com suas músicas de dois minutos, a maioria das faixas contava com músicas caipiras de raiz (diferente do que o “sertanejo” do título sugeria) com interpretações de Tonico e Tinoco, Almir Sater, Renato Teixeira e… Sérgio Reis:

“Toda vez que eu viajava pela Estrada de Ouro Fino /
de longe eu avistava a figura de um menino /
que corria abrir a porteira e depois vinha me pedindo /
toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo.”

Mas tudo o que é bom se termina e o DVD voltou a seu menu inicial. Sentado em minha poltrona 14 (é a melhor de todas, pois dificilmente alguém compra a 13 e por isso você sempre viaja mais folgado) decidi que não iria avisar o motorista. Deixei o lado cidadão de lado e vesti a camisa de psicólogo que observa o irreflexivo cotidiano dos meandros do comportamento humano. Vi a hora e esperei quanto tempo demoraria até alguém pedir para o motorista desligar as tevês. Enquanto isso, Sérgio Reis repetia o verso:

“Toda vez que eu viajava pela Estrada de Ouro Fino /
de longe eu avistava a figura de um menino /
que corria abrir a porteira e depois vinha me pedindo /
toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo.”

E ninguém fazia nada. Alguns retomavam suas conversas, leituras e sonos. Muitos olhavam para frente, olhando além dos limites do ônibus. E ninguém, absolutamente ninguém, parecia incomodado toda vez que o Sérgio Reis insistia que:

“Toda vez que eu viajava pela Estrada de Ouro Fino /
de longe eu avistava a figura de um menino /
que corria abrir a porteira e depois vinha me pedindo /
toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo.”

Eu já perdia a paciência, mas um experimento deve ser conduzido até o seu final. Alguém a qualquer momento deveria levantar, não é possível. Não custava nada.

“Toda vez que eu viajava pela Estrada de Ouro Fino /
de longe eu avistava a figura de um menino /
que corria abrir a porteira e depois vinha me pedindo /
toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo.”

Vinte e dois minutos depois do início da cantoria em repetição deixei meu lado científico na poltrona 14 e levantei eu mesmo para falar com o motorista. Será que era só eu que não aguentava mais? Avisei o motorista, ele fez uma cara de “Ah, obrigado, eu tinha esquecido do filme!” e desligou a voz do Sérgio Reis. Mas o incrível foi que, na medida em que voltava para o meu lugar no meio do ônibus todos os passageiros me olhavam com um olhar brilhante de gratidão. Alguns fizeram questão de manifestar seu agradecimento verbalmente. E eu desfilava tal qual um herói até a poltrona 14.

É por isso que nunca gostei de televisão em ônibus… e agora nem do Sérgio Reis.

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