viagem com jota

16, fevereiro 16UTC 2009 às 11:16 pm | Publicado em histórias verídicas que realmente aconteceram | 8 Comentários

jotalhaoResolvi entrar na maior livraria de Curitiba (em número de lojas e livros, não de títulos) em época de voltas às aulas.  As estantes que expunham os lançamentos e livros em promoção, assim como mais da metade do lugar, foram substituídas por material escolar. Querendo comprar um presente para um amigo, busquei o pequeno reduto que ainda tinha livros.

Não encontrei sozinho a obra que procurava e busquei um vendedor. Um ocupado funcionário fuçava o sistema no computador local (se estivesse dando “só uma olhadinha”, haveria muitos para me atenderem). Me intrometi no seu trabalho e perguntei:

– Com licença, onde encontro o “A Viagem do Elefante”? Do Saramago.

– De quem?

– Do Saramago. Do José Saramago, o escritor português que ganhou o Nobel de…

– Acho que esse nós não temos. Deixe eu dar uma olhada. Como é nome mesmo do livro?

– A Viagem do Elefante.

Ele digitou no sistema e disse categórico:

– Não, esse a gente não tem.

Tendo olhado por cima de seu ombro, resolvi corrigir:

– É que viagem é com gê, você digitou com jota.

Ficou meio sem graça e resolvi acrescentar, para parecer menos rude:

– É que viajar é com jota mesmo, então essa confusão é bastante comum…

Procurou no sistema pelo autor e foi direto na prateleira correspondente. Enquanto passava o dedo por entre a Jangada de Pedra, o Ensaio sobre a Cegueira, o Evangelho Segundo Jesus Cristo, resolvi trocar umas palavras com outro cliente que esperava para ser atendido:

– Veja só, como é que um funcionário de uma livraria não conhece o Saramago?

– É mesmo – respondeu com um sotaque difícil de reconhecer com poucas palavras.

Chega o vendedor:

– Olha, o sistema disse que tem um exemplar, mas não achei na prateleira.

– É que o livro é lançamento. Será que não está na parte dos lançamentos?

O vendedor correu por outra parte da loja e voltava com o livro em mãos.

Enquanto isso, continuei a conversa com o dono do sotaque:

– Você é de onde?

– Do Chile. É por isso que conheço o Saramago. Aqui no Brasil ele não deve ser tão conhecido mesmo, porque escreve na minha língua, o espanhol.

Ah, tá. Melhor botar o livro debaixo do braço e sair de fininho.

8 Comentários »

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  1. Nossa, um vendedor de livraria que não conhece o Saramago, que escreve viagem com j, e um cliente chileno que acredita que o Saramago escreve em espanhol, de que país ele acredita que seja o Saramago? E você ali, tentando comprar um livro no meio disso tudo, hehe. Gostei desse livro do Saramago, é bom ver que ele ainda continua escrevendo, mesmo após os problemas de saúde que enfrentou; agora tem até um blog, quem diria.

  2. E depois, quando digo que gosto mais de Paulo Coelho do que de Saramago, ainda dizem que estou de sacanagem.

  3. Por isto e por outros motivos que me recuso a abrir a boca. O mar de ignorância parece já ter tomado conta de todos os lugares. Mas em uma livraria era o último lugar em eu que suspeitasse já havia chegado.

  4. Paulo Coelho é aquele escritor argentino, não? Se não, garanto que seja português!

    Agora, que aventura comprar um livro hoje! Mas garanto que o amigo deve ter gostado.

  5. Isso, Coelho é português. Argentino são o Garcia Lorca e o Gabriel Garcia Marques. Grandes escritores da língua argentina. Que por sinal, são primos.

  6. (adorei a analogia ao Jota da Turma da Mônica)

    Até que existe uma forma de conjugar o verbo viajar em que viagem se escreve com “j”, contudo não me pergunte qual é. hehehehe

    Pois é, Saramago em espanhol como e Borges e Neruda em Português, não é mesmo? rs

    Um grande abraço

  7. A livraria deve ter seu auge de vendas no começo do ano, quando investe pesado no material escolar e nos livros didáticos. E, para dar conta deste aumento de demanda, provavelmente deve contratar funcionário temporários, que não precisariam entender muito de livros, mas de papel A4 e tesouras sem ponta.

    Só assim entendo o que aconteceu.

  8. Eu lembro que na Argentina nenhuma livraria conhecia o Raúl Prebisch… maior decepção da minha vida…


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