um Phineas Cage brasileiro?

31, março 31UTC 2009 às 5:40 pm | Publicado em psicologia | 3 Comentários

A essa altura do campeonato, todos já conhecem a história do mergulhador Emerson de Oliveira Abreu que teve acidentalmente um arpão cravado em sua cabeça durante uma pesca submarina. O que surpreendeu foi a iniciativa e a desenvoltura ao procurar auxílio, apresentando cognição, motricidade e linguagem preservadas e, ainda mais, a preservação de todas estas funções após a cirurgia de retirada do arpão.

Embora a mídia não divulgue com clareza os laudos médicos, parece que arpão acertou acertou as áreas órbito-frontais do cérebro (que fazem parte do famoso lobo pré-frontal). Segundo os médicos, “o acidente não atingiu áreas nobres“, o que significa nenhum prejuízo grave após o acidente, afinal ele continua consciente, falando e se movimentando normalmente.

Será?

Impossível não lembrar do talvez mais famoso caso da história das neurociências (ele disputa com o H. M. em popularidade), Phineas Cage. Cage teve seu crânio atravessado por uma barra de ferro e, mesmo assim buscou consciente auxílio médico e não teve nenhuma  sequela visível: falava, se movimentava e fazia uso da consciência normalmente. Mas algo mudou. Cage perdeu junto com a massa encefálica da região pré-frontal seu freio inibitório: passou a ser mais relapso, a falar palavrões sem censura alguma e não concluir atividades iniciadas, entre outros sintomas. A ciência descobria a função desta área até então desconhecida do cérebro.

tn_620_600_arpao_310309O cérebro de Emerson Abreu.

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phineas-cageO cérebro de Phineas Cage.

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Em ambos os casos, as mesmas áreas cerebrais envolvidas. Embora alguns já tenham relacionado os casos (aqui e aqui, por exemplo), impressiona a falta de importância atribuída ao pré-frontal. É curioso como os médicos de Emerson descrevem a área como pouco nobre. A última região cerebral a se desenvolver tanto na espécie humana (filogenéticamente ) como em cada pessoa em particular (ontologicamente) é uma das mais frágeis (é a primeira região, por exemplo, a se “desligar” durante o consumo de álcool; explicada a desinibição do bêbado), porém responsável pelas nossas mais elaboradas funções cognitivas, como o planejamento.

Os possíveis efeitos do acidente no mergulhador não aparecerão em uma tomografia ou ressonância. Mas em uma avaliação neuropsicológica. Espero que Emerson passe pelo procedimento. Senão, teremos perdido a oportunidade de estudar um caso com uma semelhança ímpar a um caso clássico das neurociências.

3 Comentários »

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  1. Eu havia pensando nisso quando vi o caso dele in passant. Pena que a imprensa não aproveita para disseminar um pouco de conhecimento util em um caso como este, se comportando mais como um dono de circo de horrores do sec XVIII.

    Um abraço

  2. Fui na Exposição do Cérebro,localizada no Parque Ibirapuera, e , ouvi falar desse tal de Phineas Cage,que,em uma explosão teve seu crânio perfurado por uma barra de ferro.Nenhuma perda de movimentos,ou funções vitais,mas,descobriram que ele não tinha mais personalidade/emoção,morreu 11 anos depois do acidente.

  3. O neurologista portugues “Antonio Damásio”, que trabalha nos Estados Unidos esrcreveu um livro em que descreve o caso de Phineas Cage. Em livros posteriores defende a importancia da área cerebral que afetou Phineas. Analisa e descreve a importancia das emoções primárias no desenvolvimento humano através de uma trilogia que vale a pena: “O Erro de Decartes”; “O mistério da consciencia”; “Em busca de Espinoza”.


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