aproximadamente normal

26, maio 26UTC 2009 às 12:10 am | Publicado em educação, psicologia | 15 Comentários

curva normal

Uma curva normal normal

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Entre as minhas atividades pouco usuais está a de ser professor de estatística. Tive uma forte formação na área de humanas (leia-se uma fraca, ou nula, formação na área de exatas) durante minha graduação em psicologia. Mas durante meus estudos posteriores felizmente descobri que os números não precisam lutar contra as palavras e resolvi aprender estatística de verdade. 

Assim, hoje leciono uma disciplina de Introdução à Estatística para uma turma de calouros de psicologia. O que é uma tarefa ingrata (mesmo que bastante desafiadora), visto que o aluno desta área espera nunca mais ver matemática na vida e por isso metade do esforço da disciplina é tentar não criar hojeriza para si mesma (mas, paradoxalmente, se o aluno adorar a disciplina ele é aconselhado a mudar de curso, afinal não vai encontrar muitas outras coisas parecidas no currículo do curso). A outra metado do esforço é para mostrar como estatística é importante para as ciências humanas principalmente para poder escolher métodos apenas qualitativos por pura opção metodológica e não pela ignorância dos métodos quantitativos. 

Mas há pontos de extremo contato entre estatística e psicologia. O meu tema preferido é o da Curva Normal. O conceito de normalidade em psicologia tem origens e implicações históricas, filosóficas, sociológicas e  antropológicas (sobre isto pergunte ao Catatau, a maior perito que conheço no assunto, junto com seus amigos Foucalt, Deleuze, Guattari e Canguilhem). Mas bem procuradinho o conceito de normalidade talvez venha mesmo é da curva normal desenhada por Carl Gauss e aprimorada por Francis Galton (que também contribuiu muito para a psicologia lançando umas das primeiras perspectivas científicas, mesmo que deturpada,  sobre a inteligência). Ser normal é estar dentro dos dois desvios-padrões que circundam a média, é pertencer à maioria de uma distribuição. Se você cai para o canto da curva de sino, passa a ser menos normal.

norma9Uma curva normal estilosa

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Neste sentido a normalidade é o comum, o ordinário, o frequente (o mesmo vale para o conceito de moda, outra expressão cotidiana com origem em um termo estatístico).  O que foge do comum (deficiência, loucura, pobreza, homosexualidade…) é anormal. 

O problema é que, como cantava Caetano,

“De perto ninguém é normal.”

O que faz muito sentido, já que é impossível ser ordinário em tudo. Há sempre um desvio (estatístico que seja) em alguma dimensão da vida. E na medida em que nossa sociedade foi percebendo isso e trazendo um pouco de alteridade para o cotidiano, ser normal não só deixou de ser o esperado como passou a ser algo inclusive indesejado. Cantou também o maluco beleza:

“Enquanto você se esforça pra ser/

Um sujeito normal/

E fazer tudo igual/

Eu do meu lado aprendendo a ser louco…”

E o resto da música você conhece. Pois bem, ser normal ja não é (se é que um dia já foi) o objetivo último da humanidade.

E, depois de tantas voltas, chego finalmente onde queria. Dando uma olhada nos rótulos de shampoo no supermercado encontrei uma classificação bastante interessante sobre os tipos de cabelo. Há shampoo para cabelos secos e danificados, caheados e rebeldes, frágeis e quebradiços, quimicamente tratados, com pontas duplas, difíceis de alisar. E, finalmente, shampoo para todo tipo de cabelo e de cabelo normal a oleoso. Considerando que o shampoo para todo tipo de cabelo é para as crianças (também chamadas de kids e que por enquanto parecem ter só um tipo de cabelo), sobra a opção “cabelo normal” apenas para o shampoo que inclui na sua fórmula a opção “oleoso” também. Nisto me pergunto se alguém compra (ou pede que o marido traga do mercado) este shampoo porque seu cabelo é normal. O que é um cabelo normal? Que é que considera seu cabelo normal? O normal (capilarmente falando) parece não ser normal (estatisticamente falando).

pequeno principeParece uma curva normal, mas é uma jibóia.

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É formidável haver tanta diversidade. Em nossa sociedade do consumo, escolhe-se o shampoo como se escolhe a religião, a educação dos filhos, o estilo musical preferido, o meio de transporte, enfim, quase tudo. Afinal as inúmeras opções estão aí para agradar o freguês. Mas curiosamente, a insatisfação parece crescente.

Longe de mim defender a tradição, família e propriedade como bastiões para um mundo sensato, mas esta neo-pós-modernidade deixa as aulas de estatística um pouco mais difíceis.

lições que a vida me ensinou

18, maio 18UTC 2009 às 9:39 pm | Publicado em cotidiano | 8 Comentários

cotovelo.

Creio que devo satisfações devido a quase um mês sem atualizações neste espaço.  Sendo destro, quebrei o braço direito (na verdade o cotovelo) em um acidente bobo de bicicleta (onde o agressor, a vítima e o socorrista eram a mesma pessoa). Se isto não me impediu de levar a vida normalmente (se levar a vida normalmente significa não fazer nenhuma atividade física de impacto moderado, não desenhar, não tocar violão e/ou jogar Nintendo Wii), ao menos tornou mais lenta algumas atividades (as que envolviam digitação, por exemplo), deixando uma pilha de atividades por fazer que estou tentando atualizar agora.

Esclarecido, seguem abaixo precisas lições de vida que não são generalizáveis para ninguém. 

 

1. O braço esquerdo é capaz de coisas que o direito nem imagina.

 

Um pouco de treino e o lado sinistro acaba se revelando. Me orgulhei muito de conseguir ser legível escrevendo no quadro e de passar desodorante sozinho em ambos os sovacos.

 

2. As pessoas (não-motoristas) são prestativas no ônibus

 

Uma tipóia e gesso visíveis conseguem facilmente lugar para sentar. O segredo é o contato visual com as pessoas sentadas nos assentos preferenciais.

 

3. Os motoristas (não-pessoas) não são prestativos no ônibus

 

O aviso sonoro de “porta fechando” nos biarticulados era um alerta para tomar uma decisão rápida entre desistir de entrar/sair no ponto certo ou arriscar perder o que sobrou do braço em recuperação. Mais ou menos como um Dante chegando no inferno: “Deixai toda esperança nas portas 2 e 4.”

 

4. Cansa repetir a mesma história 1.542 vezes

 

Compreendia e agradecia a empatia de todo mundo ao me ver engessado, mas confesso que chegava às vezes ser irritante contar a mesma história sempre.  Por isso criava várias versões e até inventava algumas bem diferentes. Mas na maioria das vezes contei a mesma coisa. Pensei seriamente em colocar como aconteceu o acidente todo em detalhes em algum site (com fotos, simulações em 3D e depoimentos) e entregar o endereço para quem preguntasse. Seria menos trabalhoso. Mas bem menos empático da minha parte.

 

5. O capacete é importante

Eu já sabia, mas a hipótese só foi corroborada. Se não fosse por ele, era a cabeça que estaria engessada.

 

6.  Todos tem uma história sobre acidente de moto

Ouvi algumas vezes o comentário (idiota): “é por isso que não ando de bicicleta”. Mas ouvi muito mais sobre fraturas e sérias consequências de acidentes com motocicletas. Caindo da bicicleta, fraturei o cotovelo, mas não precisei de cirurgia, bastou esperar que o corpo cuidasse de si. De moto talvez nem o capacete desse conta e nem haveria cotovelo inteiro para contar a história.

Pronto. Agora que cotovelos estão inteiros e na impossibilidade que eles tem de se expressar, falarei, enfim, pelos cotovelos.

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