a conquista do nada

8, dezembro 08UTC 2009 às 9:33 pm | Publicado em literatura | 2 Comentários
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2009 é/foi um ano de comemorações de centenários. 100 anos da descrição da doença de Chagas, do Sport Club Internacional, do Coritiba Foot Ball Club, da letra do Hino Nacional, além do bicentenário de nascimento de Charles Darwin, só para ficar entre os mais citados. Cada um foi mais ou menos relembrado, de acordo com seu nicho e com sua importância relativa.  Um centenário, entretanto, foi muito pouco mencionado: o da conquista do Pólo Norte.

Ainda bem.

Em primeiro lugar porque provavelmente trata-se de uma fraude. Depois, porque foi não o homem branco – Robert Peary, o que levou a fama – o principal responsável pela façanha. Não fossem os esquimós e um importante membro negro da equipe – Matthen Henson – toda a equipe estaria até hoje sepultada no grande bloco de gelo branco que é o ártico.

Esquimós, aliás, não. Inuits.  O termo esquimó originalmente era utilizado por outros grupos étnicos e significava “aqueles que comem carne crua”, sendo obviamente pejorativo. Embora hoje não carregue mais este tom negativo, a etnia mais ao norte preferia (e prefere) se auto-referenciar como Inuit, ou seja, os Homens. Os verdadeiros Homens, únicos que conseguem sobreviver no e do gelo.

Há dois ótimos romances sobre este povo: “No país das Sombras Longas” e “A Volta ao país das Sombras Longas”, publicados por aqui na década de 80, já esgotados, mas encontráveis em sebos. De prosa direta e aparentemente simples, o autor Hans Ruesch (que nunca pisou no Alasca ou em outra parte do círculo polar ártico, mas que parece ter estudado aprofundadamente a cultura inuit) apresenta o cotidiano de uma família caçadora.

Se o que está lá é verdade, há informações muito curiosas além dos beijos com o nariz e do empréstimo da esposa. Os inuits, por exemplo, não possuem a palavra “roubar” em seu vocabulário, utilizam uma dieta exclusivamente carnívora, hibernam no inverno, não realizam despedidas, entregam à morte crianças pequenas e idosos sem culpa e  e são o único grupo humano conhecido a não se envolver em guerra alguma.

Vejamos o relato da conquista do Pólo Norte sobre a ótica inuit presente no segundo volume da série:

– Meu pai conhecei vários homnes que tinham viajado na expedição de Pohol, a mais famosa entre os homens brancos. Durante anos, os homens brancos tentaram chegar tão perto do norte de tal modo que vissem o sul em todas as direções para que se voltassem. Ninguém sabe quantos morreram tentando e quantos comeram os outros para sobreviver, para não falar dos navios esmagados quando o mar se congelou. Eles insistiam em viajar como em suas próprias terras, carregando desde a partida todo o alimento e o carvão de que precisariam. Assim, todos se davam mal, a não ser que voltassem a tempo, como o bom e velho Pohol e seus companheiros fizeram antes. Até que os Homens decidiram mostrar-lhe como viajar no gelo, lamentando que ele fosse velho. Parece que durante um ano inteiro todas as tribos de homens brancos abaixo da linha das árvores não falaram em outra coisa: o velho Pohol vai conseguir chegar ao norte exato? Eles pronunciavam seu nome de modo diferente. A viagem não era fácil, mesmo para os Homens que o acompanhavam, porque Pohol e seus companheiros não eram fortes e não se sentiam aquecidos na maior parte do tempo, e os Homens tinham de levar todas as cargas desnecessárias dos homens brancos. Bem, todos trilharam para o norte até que o instrumento mágico dos homens brancos lhes disse que finalmente haviam alcançado o norte exato. E o que vocês pensam que encontraram lá?

– O quê?

– Nada! – Os olhos de Papik se encheram de água com o regozijo. – Absolutamente nada!

Este ano Claude Levi-Strauss, com 100 anos, morreu. Uma ideia central de sua obra é a de que não há cultura superior ou inferior, apenas diferente. E olhar para a cultura alheia possibilita um olhar melhor para a sua própria cultura. Até onde um olhar centenário alcança.

2 Comentários »

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  1. Nada. A conquista do nada.

    Um belo titulo, uma ótima esplicação.

    Um beijo Inuit

  2. […] Tem livros que às vezes  caem na graça da gente. […]


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