a primeira vez que me chamaram de pai

5, janeiro 05-03:00 2010 às 9:04 am | Publicado em histórias verídicas que realmente aconteceram | 6 Comentários

Com um ano de tentativas sem sucesso algum para engravidar, um casal é tecnicamente chamado de estéril. Estava nesta situação e resolvi procurar um andrologista, já que a causa de infertilidade masculinada é a mais fácil de ser localizada e, teoricamente, de ser tratada também. Como não conheço ninguém que tenha frequentado esta especialidade médica (e se tem não contou pra mim), encontrei um na lista telefônica. Dois critérios foram determinantes para sua escolha: localização (consultório a quatro quadras de casa) e formação (o tal era professor na Federal).

O professor doutor solicitou uma série de exames e deu ênfase para o espermograma, que deveria ser realizado de preferência em uma determinada clínica nova, que possuía uma maneira muito mais atual e precisa de apresentar os resultados. Fiz tudo conforme solicitado e, embora seja um exame um pouco constragedor, não vou dizer que o espermograma seja desagradável.

De posse do laudo, o médico bateu o olhos nas porcentagens e índices do papel e me disse que seria praticamente impossível que eu tivesse um filho. Eu poderia fazer uma cirurgia (a especialidade dele!), mas que isso não adiantaria nada (heim?, então pra que fazer a cirurgia?!) e foi falando em fertilização em vitro outras técnicas modernas de reprodução assistida e bláblálá.

Voltei desolado pelas quatro quadras até em casa. Um misto de tristeza, raiva, frustração e culpa por um crime que nunca cometi. No fim no dia chega um casal amigo, trazendo a feliz notícia de que estavam grávidos do menino que se tornaria nosso afilhado. Foi bonito, ele puxou o violão e cantou uma música com sua esposa, em uma cena inesquecível que transbordava emoção. Não me era permitido sentir inveja, ao máximo compartilhei a alegria com eles.

Poucos dias se passaram, eu ainda naquela imprecisão emocional a flor da pele.

Toca o telefone.

– Alou?

– Alô, pai?!

Pai? O suposto filho continua em voz trêmula e chorosa.

– Alô, pai? Socorro, estou sendo sequestrado!

– Ah, então você é meu filho?

– É, pai, eu sou o seu filho… Socorro, pai, por favor, socorro!

– Meu filho?

– É pai… me ajuda, pai….

Automático, sem pensar em nada e com toda a força de meus pulmões:

– AH, MAS EU QUERIA TANTO TER UM FILHO… VAI TOMAR NO %$, SEU FILHO DA &#$@!!!

E descarreguei todo meu repertório de palavrões, mesmo quando o bandido que tentava me aplicar o golpe do sequestro relâmpago já havia desligado faz tempo. Parei. Respirei e caí na gargalhada junto com minha esposa.

Sem dúvida aquela ligação telefônica foi catártica.

Uma visita a outro médico revelou que não havia nada de errado comigo. O especialista anterior na verdade não sabia interpretar os dados do “novo método”. Uma cirurgia (cujo objetivo era funcional) desobstruiu em minha esposa a dificuldade existente  e uma medicação para estimular a ovulação nos propiciou duas meninas que estão para chegar a qualquer momento.

Espero apenas que a próxima vez que alguém me chamar de pai seja de um jeito bem mais tranquilo.

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