a fotocópia do xerox

8, junho 08UTC 2010 às 2:03 pm | Publicado em educação, sustentabilidade sustentável | 1 Comentário
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Imagem daqui, mas para um contexto diferente.

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Na condição agora de aluno, deparei-me com um discurso que costumo proferir como professor. Digo sempre no início das aulas que, havendo condições, é melhor adquirir o livro ao invés de xerocá-lo (ou fotocopiá-lo, mas a associação da  marca com o produto é tão forte que  só encontra comparativo no gilete e no chicletes).

As razões são simples: os xerox, depois de lidos, costumam parar em pilhas ou em pastas, isto se o leitor for organizado. Depois de um tempo, estes textos são guardados em lugares fechados e escuros, à espera de uma ocasião em que se queira resgatar algum deles. Se isto acontecer, provavelmente o texto não será encontrado (ou será encontrado com alguma dificuldade). A chance maior é que fiquem condenados ao ostracismo (a máxima de que “quem não é visto, não é lembrado” não vale apenas para pessoas) até que uma limpa no guarda-roupa os levem, na melhor das hipóteses, ao centro de reciclagem mais próximo. Uma espécie de purgatório  sem chance de rendenção,  tendo a condenação eterna, mais cedo ou mais tarde, como único destino.

Os livros, por outro lado, ficam bem em qualquer estante. Mesmo que nunca mais sejam abertos (o que é improvável, hora ou outra alguém resgata a obra nem que seja a título de curiosidade), servem como objetos de decoração e de espanto para as visitas (“Você já leu tudo isso?”).

Além disso, o xerox passa a falsa impressão de domínio do conhecimento. Eu já tenho o texto, dirá alguém, e é como se o texto já fosse realmente dele. Não é. Será quando for lido e lido com propriedade. Quem sabe re-lido, sublinhado e comentado nas laterais. E para isto, paradoxalmente, a posse física do texto nem é sempre necessária.

Mas para o livro não seria a mesma coisa? Não, porque um livro novo grita que não foi lido. Um livro surrado significa que passou por um leitor criterioso e agrega pontos para seu dono aos olhos externos. Enquanto que um xerox usado é visto como lixo, coisa feia, prestes a ser jogado fora.

Por isto, compre o livro ao invés de xerocá-lo, digo aos alunos. E procuro ter uma postura mais ou menos coerente com o discurso ao indicar pouca e boa bibliografia para as disciplinas que leciono. Mas como aluno, encontro uma postura diferente: para a semana, que vem os textos já estão na pasta 108; é preciso democratizar o acesso à cultura; vou emprestar estes livros de acesso difícil, devolva por favor na próxima quarta e,  para quem quiser, vai passar uma lista para que possamos socializar o livro que o colega trouxe de Cuba. Pronto, cá estou lendo a pilha de xerox enquanto ela não vai para o purgatório.

Por este prisma, nem todo livro vale a pena ser adquirido, alguns são realmente caros e a fotocópia é uma opção rápida e relativamente barata. Mas, além das clássicas e eficazes bibliotecas de bom porte, a internet felizmente pode ajudar a diminuir a prática do xerox que conta, além dos efeitos cognitivos e de organização comentados, com implicações ambientais óbvias.

Os scans e arquivos em pdf disponibilizados principalmente por revistas científicas, em época de e-readers e netbooks aproximam o leitor ao conteúdo com grande velocidade e baixo impacto. As redes sociais (como o ótimo skoob) organizam a leitura, mesmo sem a posse física  do livro. Os sebos virtuais (Estante Virtual e A Traça), assim como os sites de troca de livros (Troca de Livros e Trocando Livros) tornam o preço e o acesso das obras muito mais acessíveis.

Bom, mas no caso de ter que ir de xerox mesmo, ao menos é melhor pedir cópia frente e verso e em papel reciclado.

1 Comentário »

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  1. Isopor e Maizena também são marcas fortes.

    Não conhecia os sites de trocas, boas dicas. Parece que um deles é pago né?

    Assim como muitos outros bens materiais, o problema dos livros é o individualismo extremo gerado pela facilidade em produzir, consumir e descartar.

    Livros deveriam servir comunidades e não indivíduos.


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