coisa de macho

2, maio 02UTC 2011 às 9:40 pm | Publicado em histórias verídicas que realmente aconteceram | 7 Comentários
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Roubado do blog do Lielson
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O gênero masculino anda em crise e não é de hoje. Desde que o movimento feminista resolveu lutar (com razão) por um melhor lugar feminino na sociedade, os homens passaram a não saber muito bem onde estão.
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Da minha parte, vivo cercado de mulheres. Na faculdade de psicologia, onde trabalho, o sexo feminino é maioria entre docentes e discentes. Em casa, para chegar ao empate, tenho que fazer ainda dois meninos; jogo perdido, portanto. E a área da Educação, onde faço doutorado, é dominado historicamente pelas mulheres. Como abandonei o futebol mesmo antes de me tornar um torcedor moderado e meus amigos mais próximos não costumam ver em botecos e cerveja a melhor opção de lazer, frequento pouquíssimos lugares que são passíveis de rótulo masculino. Que fique claro, não estou me queixando! Adoro as mulheres no entorno e não coloco em dúvida minha orientação sexual. Mas, até onde eu sei, desde que antropologia se entende por ciência, a relação entre os pares é fator importante o fortalecimento da identidade.
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Dito isto, deparei-me com o desafio mensal de cortar o cabelo. Onde? Não queria repetir o ritual em mais um espaço tipicamente feminino. Há algum mal em procurar um lugar de homem que não visse nesta banal atividade motivo para querer melhorar minha autoestima, me informar sobre o universo das novelas e/ou me cobrar mais de 20 pilas por um corte que não dá trabalho algum e que cultivo desde a vida toda? Pois bem, vamos às opções.
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Há as grandes redes de cabelereiras populares, com salões pintados de rosa e esquema de linha de montagem que vão da unha do pé à última técnica de alisamento. Nem pensar, embora o preço seja até amigável, homem nenhum pisa lá dentro. Existem as redes de salões chiquetosos, que contam que um equipe de cabelereiros masculinos em um espaço muitas vezes separado para este público. Mas há dois grandes problemas: o primeiro é que por mais que o cabeleireiro converse contigo sobre o atletiba, ele pára a conversa no meio para oferecer café, chá ou… champanhe! Isso é coisa de tomar na hora de cortar o cabelo? O outro problema é que o corte fica muito mais caro que os 20 reais aceitáveis. Ultimamente tem surgido redes de salões de beleza exclusivamente masculinos, cujo slogam é de que é coisa de macho. Tem cerveja no frigobar, decoração vintage e Playboy espalhada nos balcões. Convenhamos que não é o melhor lugar para ler uma Playboy e, por mais que a decoração busque uma referência masculina, foi feita por uma mulher. O preço também é alto: mais barato é cortar o cabelo por vintão e tomar uma cerveja no boteco. Há, então, os pequenos salões em que a dona corta cabelo e a filha faz a unha. Nestes o preço é bom, mas é preciso conviver com as revistas Caras e Contigo antigas, televisão ligada no Vale a Pena Ver de Novo e as conversas sobre as futilidades do mundo das celebridades. E, é claro, existem as antigas barbearias que fazem barba, cabelo e bigode por preços módicos.  Perfeito! Nas minhas andanças pelo bairro olhei mais atentamente para ver se encontrava alguma.
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Encontrei. Na placa dizia “Cabelereiro Unissex”, mas só tinha o barbeiro de branco cortando o cabelo de um senhor. Entrei e perguntei o valor do corte.
– Vinte reais.
E tinha horário para dali a pouco. Mandou-me sentar e em vão procurei um sofá ou banquinho. Percebi que deveria sentar na outra cadeira em frente ao espelho. Sentei e abri a Tribuna. A manchete principal do jornal alardeava para o empilhamento de corpos no IML de Curitiba. Logo chegou minha vez, troquei de cadeira e já fui explicando que queria manter o mesmo penteado, cortar apenas as pontas porque caso contrário o cabelo arrepia atrás e… percebi que não estava sendo ouvido, o profissional já havia começado seu trabalho. Conversamos sobre o IML, o campeonato paranaense, o trânsito, a região metropolitana. Chegou alguém e perguntou:
– Quanto é só para passar a máquina?
– Vinte reais.
– Vinte reais só para passar a máquina? Tá bom.
Sentou na cadeira ao lado, abriu a Tribuna e esperou. Enquanto isso, o cabeleireiro logo largou a tesoura e pegou o espelho, mostrando-me a nuca sob diversos ângulos: a parte do ritual que indica que o evento chegara ao fim. Paguei, agradeci. Mas o cara acabou com o meu cabelo. Ficou curto, arrepiado, um barbeiro do exército deixaria o milico com um corte mais apresentável!
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Mês que vem estarei lá novamente.

7 Comentários »

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  1. Me dei melhor! Vou em um que cobra 12,00, mas a maior parte das revistas são as medonhas caras. Agora ele está fazendo um teste: colocou a infame veja, 4rodas, 2rodas e superinteressante. Quando me perguntou o que achava melhor disse-lhe que qualquer coisa menos caras! Mas a mulher (dele) trabalha junto fazendo as unhas das mulheres. Aí já viu, não é?

    Eu o recomendo, apesar que ele ganha um dinheiro fácil comigo: é só passar a máquina e em uns 15 minutos, no máximo, já deu cabo do trabalho. Quem manda ser careca😉 Ou seja, não posso afirmar se o trabalho dele é bom!

    • Superinteressante em salão de beleza vale ouro, hein? Me diz onde fica este salão, R$ 12,00 meu corte está bem pago, heheh

      • Fica ali na Tv. Itararé (atrás do terminal do Guadalupe) esquina com a Tibagi. Chama-se Paulo e é muito boa gente!

  2. Faz uns 3 anos que acabei com esse dilema. Comprei uma maquininha dessas (semi) profissional e eu mesmo corto meu cabelo. Claro, o acabamento sempre fica por conta de um toque feminino. Mas isso vale pra quem “passa maquina” como corte usual, nao para quem ainda pretende manter um penteado… alias esse sim eu nao gosto e, mesmo quando mantinha um cabelo nao “maquinado”, deixava as madeixas sem ver o pente…muito ruim eh pentear. o corte rapado se adequa a minha vida de pedalante e de quem nao gosta de pente…

    jah frequentei muitos barbeiros, entre todos, lembro especialmente de um, para o qual nao eram importantes as revistas de fofocas, jornais sangrentos ou playboy, mas sim livros. Inclusive quando ia cortar cabelo levava um livro e trazia outro.

    • Divo, muito boa a proposta do livro no salão! Eu só não uso a máquina porque cabelo rapado acaba ressaltando meu já não pequeno nariz… Mas é a opção mais prática mesmo.

  3. Atualmente vivo em um ambiente altamente masculino. Aqui o corte de cabelo custa 2 reais.

    Só dois reais para cortar o cabelo!

    (+ o que você gasta para arrumar depois… rs)

    Eu, que não corto o cabelo com ele, me divirto com as histórias dos rapazes suas vitimas ops, digo, clientes.

    Detalhe sórdido: o referido barbeiro também trabalha como motorista. E como motorista é um bom barbeiro e como barbeiro… bem… rs

    Saudações

    Ps.: eu já andei escrevendo um texto sobre salão de beleza, o link:
    http://metamorfosepensante.wordpress.com/2010/01/30/no-salao-de-beleza/

    • Quando escrevi o post, estava lembrando do que você já havia escrito sobre. Realmente os salões são um espaço à parte.


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