a internet está nos deixando mais burros?

6, junho 06UTC 2012 às 8:04 pm | Publicado em psicologia | Deixe um comentário

É uma pergunta recorrente esta se a internet nos faz menos inteligentes: basta dar uma googlada por aí para ouvirmos várias respostas. E aí é que mora o cerne da questão, em usar motores de busca para respondermos qualquer coisa: boa parte das respostas culpa o acesso fácil à informação na suposta queda da inteligência.

Platão dizia que a língua escrita fazia mal à memória  e a queixa de professores universitários no séc. XVI com o acesso facilitado do livro era de que a informação prontamente disponível criava alunos preguiçosos . Guardadas as proporções de tempo, veículo de infomação e velocidade da banda larga ao longo da história, parece que o poder internético de destruir cérebros está sendo maximizado, como foi a escrita e o livro impresso. Da minha parte, sou um otimista e, como o Critóvão Tezza costuma sempre afirmar, é impossível não pensar que a popularização da internet traz a palavra escrita no lugar da imagem ágrafa da televisão, o que não pode ser de todo ruim.

Mas, voltando à pergunta, primeiro precisamos definir o que é inteligência. A definição clássica da psicologia cognitiva é que inteligência é a capacidade de resolver problemas. Ótimo, mas a partir daí há classificações para todos os gostos e finalidades; inteligiências múltiplas, gerais, artificiais, natuais, fatoriais, emocionais, ecológicas… Poucos constructos psicológicos foram tão discutidos e estudados como a inteligência, não sem uma boa dose de discussão acadêmica. Um dos modelos mais parcimoniosos proposto por Cattle na década de 70 (e que faz parte de outro modelo contemporaneamente bastante aceito, o C-H-C), é o que afima duas inteligiências básicas: a fluida e a cristalizada.

A inteligência fluida é responsável por resolver problemas que não necessitem de conteúdo prévio, diretamente ligado ao raciocínio, abstração e relação dos estímulos entre si. Utiliza basicamente a parte anterior do cérebro (mais especificamente, o cortéx pré-frontal). E a inteligência cristalizada resolve problemas a partir do conhecimento prévio, utiliza justamente o conteúdo de outros problemas resolvidos ou simplesmente de informações semânticas e episódicas para chegar a uma resposta adequada. Utiliza a parte posterior do córtex (em especial o hipocampo e lobos occipital, parieta e temporal). Um jovem possui uma inteligência fluida maior que a cristalizada e à medida que a idade avança a fluida decai enquanto a cristalizada aumenta, dando superioridade à esta última em idades mais avançadas; uma compensação, por assim dizer.

Juntando lé com cré, parece-me difícil haver uma influência negativa da internet na inteligência fluida. Ela possibilita mais espaços de resolução de problemas abstratos, desde, é claro, que não iniba os problemas da vida real. Na inteligência cristalizada, se por um lado a facilidade de encontrar qualquer informação em poucos segundos pode desmotivar o armazenamento offline no hipocampo, por outro lado possibilita o acesso de muito mais informação do que ousaríamos supor que podem ser usadas ao nosso favor.

Se a inteligência geral da humanidade cairá na medida em que a expansão do cabo azul crescer ou a potência do wireless aumentar, só o futuro dirá. No entanto, o que se fará com esta inteligência maior ou menor, campo este agora da ética, já é outro assunto.

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