Ardil-22

20, julho 20UTC 2011 às 11:00 pm | Publicado em literatura | Deixe um comentário


Tudo bem que o livro é sobre a força aérea americana em uma campanha na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Mas tive que me assegurar que o autor não era inglês assim que comecei sua leitura. Não era. Joseph Heller é americano, mas o non-sense, a sutil ironia e o debochante escárnio convivendo juntos em harmonia no Ardil-22 é típico do humor inglês.

O livro é um libelo contra a estupidez humana (em especial, a estupidez humana na sua forma mais pura e poderosa, a guerra) e um clássico do pensamento divergente e da desobediência civil (ou desobediência militar, neste caso). Yossarian, o personagem principal, só quer sair da guerra vivo. Mas a burocracia kafkiana (principalmente na forma do tal Ardil-22) e a miríade de personagens impagáveis que o cercm fazem com que tal desejo pareça insanidade, enquanto a razão fica de posse da tradição burra e autoritária.

Heller consegue, com sua narrativa não-linear e sua lógica pouco ortodoxa, expor as feridas humanas com a força de que só humor em sua melhor forma conseguiria.

Como diziam os manifestantes contra a Guerra do Vietnan:

Yossarian lives!

E continua cada vez mais vivo.

uma noite em curitiba

9, maio 09UTC 2011 às 11:28 pm | Publicado em literatura | 1 Comentário

Este livro carrega ao mesmo tempo as principais características consagradas em livros diferentes da prosa do Tezza. Possui traços autobiográficos (o personagem principal é um professor universitário da área de humanas), dois narradores (há cartas do pai e narrativas do filho preenchendo as lacunas), cenário no centro de Curitiba (o máximo de afastamento da trama é na BR, limite da cidade)e as deliciosas digressões dos narradores em suas elocubrações próprias.

O romance é todo seguindo um certo suspense crescente, o leitor é conduzido atrás de algum evento que não sabe necessariamente do que se trata. Mas mais do que a revelação ao final da obra, o que vale é o tortuoso caminho percorrido entre textos acadêmicos, fugas em motéis, jornadas científicas e interpretações histriônicas.

Como curiosidade, a obra não é só datada pelos cabeçalhos das cartas. Há alguns detalhes que revelam a características (já moribundas naquela época) do início dos anos 90: arquivos de computador com apenas oito caracteres e o comentário entre passageiros de táxi sobre a falta de hábito do brasileiro em usar o cinto de segurança.

Pena que o livro é curto e não chega a empolgar como os outros que já li até agora do autor. Mas, de qualquer modo, vale muito mais que uma noite apenas.



				
			

breves entrevistas com homens hediondos

20, abril 20UTC 2011 às 8:33 am | Publicado em literatura | 1 Comentário

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“Este é um ótimo livro sobre relacionamentos e a incapacidade real de comunicação entre os seres humanos.”

É o tipo da frase que me faria evitar a todo custo a obra mencionada, dado o número de livros de autoajuda, romance e poesia baratas que trataram de banalizar os temas. Ainda bem que “Breves Entrevistas com Homens Hediondos”, de David Foster Wallace, não me foi apresentado assim (embora seja até uma boa descrição da coletânea de contos).

A primeira coisa do Wallace que tive contato  foi o trecho do discurso que ele proferiu como paraninfo em uma cerimônia de formatura, publicado na revista piauí  por ocasião do seu suicídio, em 2008. Esqueça o discurso do Steve Jobs como exemplo de oratória em formaturas; esta pequena peça, sim, é realmente impressionante. Busquei então o que  havia do autor em português e encontrei o “Breves Entrevistas”, que entrou para a fila  das minhas leituras. Só agora consegui terminá-lo.

Não é uma leitura que permita velocidade, é preciso tempo para digeri-lá. Mas nem tanto pela estrutura (Wallace apresenta uma literatura quase experimental, com recursos como listas de respostas sem as perguntas, fórmulas maemáticas e notas de rodapé mais abundantes e importantes que o próprio texto, só para citar algumas estratégias mais simples de descrição). É muito mais pelo conteúdo. É um chute no saco, um pé no peito, unha na carne, um dedo na ferida mesmo, como quiser. As ideias são tratadas com uma crueza e despudoramento de quem não tem nada a perder.

E falando em perder, não dá para deixar de notar algumas temáticas depressivas/suicidas já presentes no decorrer dos contos: o diálogo egocêntrico e monótono do depressivo, o (mal) efeito das medicações, a psicoterapia que não anda e o próprio suicídio de maneira velada ou clara.

Mas, mais do que pelos contos, Wallace recebe elogios unânimes da crítica internacional principalmente pelos seus romances, que não me atrevo a ler em inglês. Agora mesmo está sendo lançada uma obra incompleta póstuma. É de se lamentar o fim de um escritor genial da maneira como aconteceu.

Poucas vezes vi relacionamentos humanos e a comunicação tão bem representadas como nos contos deste livro. Coisa que só a boa arte consegue fazer.

3 livros sobre a África

14, março 14UTC 2010 às 11:37 pm | Publicado em literatura | Deixe um comentário
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O Brasil é o país do futuro. Precisamente, o país de 2014 e 2016, quando o mundo volta o olhar para nós por ocasião da Copa do Mundo e das Olimpíadas. O país do presente é a África.
Bom, obviamente sei que a África não é um país e que muito menos se resume à África do Sul. Mas muita gente não sabe. A confusão do todo com a parte denuncia o quão pouco conhecemos sobre este continente. Eu  incluso.
É difícil escapar dos clichês savana, leão, zebra, girafa,tribos, Saara e o Egito lá em cima, quase-nem-sendo-mais-a-África. A tal da simplificação que facilita a vida, mas nada informa. Muito do cinema sobre o continente original da espécie humana vai nessa linha, com algumas felizes excessões recentes. O pouco que conheço sobre o cotidiano e a política dos nossos vizinhos do outro lado do Atlântico vem de algum livros (muito indicados!)  que se ambientam por lá.
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O primeiro é “Memórias de um Primata“, escrito pelo neurocientista americano Robert Sapolsky. O livro é sobre sua pesquisa com Babuínos, estresse, glicocorticóides e hierarquia social e mescla observações sobre seu objeto de estudo e relatos de suas experiências no Quênia e países adjacentes. Extremamente bem humorado, o autor vai bem além do formalismo acadêmico e mesmo do gênero “divulgação científica”, contando impagáveis e inesquecíveis  histórias sobre os massai e sobre suas viagens de carona em caminhões  em terras onde dificilmente um conterrâneo seu pisaria .
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O segundo é “Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias“, escrito pelo jornalista americano Philip Gourevitch. É sobre o massacre ocorrido em Ruanda em 1994. Uma tentativa de compreensão  da origem do conflito – a rivalidade tribal entre tutsis e hutus, criada pelos belgas – os eventos do confitos em si e o desdobramento posterior. O tipo de relato que mostra até onde a espécie humana pode chegar.
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E o terceiro,  “A Guerra do Futebol“,escrito pelo jornalista polaco Ryszard Kapuscinski.  Embora o título do livro refira-se a um evento bélico tipicamente latino-americano, mais de um terço do livro refere-se às andanças do autor pela África na época em que era correpondende do jornal estatal da Polônia nos anos 60 e 70. Um dos maiores nome do jornalismo literário, Kapuscinski conta sobre algumas vezes que arriscou seu pescoço estando presente no olho do furacão quando os países buscavam a independência de suas colônias européias. Seu relato é extremamente forte, marcante e bonito.  Além de informativo, de quem vivia a história dos países onde estava  modo tão intenso (ou até mais intenso) que seus próprios habitantes.

São livros sobre uma África um pouco mais real.

a conquista do nada

8, dezembro 08UTC 2009 às 9:33 pm | Publicado em literatura | 2 Comentários
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2009 é/foi um ano de comemorações de centenários. 100 anos da descrição da doença de Chagas, do Sport Club Internacional, do Coritiba Foot Ball Club, da letra do Hino Nacional, além do bicentenário de nascimento de Charles Darwin, só para ficar entre os mais citados. Cada um foi mais ou menos relembrado, de acordo com seu nicho e com sua importância relativa.  Um centenário, entretanto, foi muito pouco mencionado: o da conquista do Pólo Norte.

Ainda bem.

Em primeiro lugar porque provavelmente trata-se de uma fraude. Depois, porque foi não o homem branco – Robert Peary, o que levou a fama – o principal responsável pela façanha. Não fossem os esquimós e um importante membro negro da equipe – Matthen Henson – toda a equipe estaria até hoje sepultada no grande bloco de gelo branco que é o ártico.

Esquimós, aliás, não. Inuits.  O termo esquimó originalmente era utilizado por outros grupos étnicos e significava “aqueles que comem carne crua”, sendo obviamente pejorativo. Embora hoje não carregue mais este tom negativo, a etnia mais ao norte preferia (e prefere) se auto-referenciar como Inuit, ou seja, os Homens. Os verdadeiros Homens, únicos que conseguem sobreviver no e do gelo.

Há dois ótimos romances sobre este povo: “No país das Sombras Longas” e “A Volta ao país das Sombras Longas”, publicados por aqui na década de 80, já esgotados, mas encontráveis em sebos. De prosa direta e aparentemente simples, o autor Hans Ruesch (que nunca pisou no Alasca ou em outra parte do círculo polar ártico, mas que parece ter estudado aprofundadamente a cultura inuit) apresenta o cotidiano de uma família caçadora.

Se o que está lá é verdade, há informações muito curiosas além dos beijos com o nariz e do empréstimo da esposa. Os inuits, por exemplo, não possuem a palavra “roubar” em seu vocabulário, utilizam uma dieta exclusivamente carnívora, hibernam no inverno, não realizam despedidas, entregam à morte crianças pequenas e idosos sem culpa e  e são o único grupo humano conhecido a não se envolver em guerra alguma.

Vejamos o relato da conquista do Pólo Norte sobre a ótica inuit presente no segundo volume da série:

– Meu pai conhecei vários homnes que tinham viajado na expedição de Pohol, a mais famosa entre os homens brancos. Durante anos, os homens brancos tentaram chegar tão perto do norte de tal modo que vissem o sul em todas as direções para que se voltassem. Ninguém sabe quantos morreram tentando e quantos comeram os outros para sobreviver, para não falar dos navios esmagados quando o mar se congelou. Eles insistiam em viajar como em suas próprias terras, carregando desde a partida todo o alimento e o carvão de que precisariam. Assim, todos se davam mal, a não ser que voltassem a tempo, como o bom e velho Pohol e seus companheiros fizeram antes. Até que os Homens decidiram mostrar-lhe como viajar no gelo, lamentando que ele fosse velho. Parece que durante um ano inteiro todas as tribos de homens brancos abaixo da linha das árvores não falaram em outra coisa: o velho Pohol vai conseguir chegar ao norte exato? Eles pronunciavam seu nome de modo diferente. A viagem não era fácil, mesmo para os Homens que o acompanhavam, porque Pohol e seus companheiros não eram fortes e não se sentiam aquecidos na maior parte do tempo, e os Homens tinham de levar todas as cargas desnecessárias dos homens brancos. Bem, todos trilharam para o norte até que o instrumento mágico dos homens brancos lhes disse que finalmente haviam alcançado o norte exato. E o que vocês pensam que encontraram lá?

– O quê?

– Nada! – Os olhos de Papik se encheram de água com o regozijo. – Absolutamente nada!

Este ano Claude Levi-Strauss, com 100 anos, morreu. Uma ideia central de sua obra é a de que não há cultura superior ou inferior, apenas diferente. E olhar para a cultura alheia possibilita um olhar melhor para a sua própria cultura. Até onde um olhar centenário alcança.

humor engraçado

26, agosto 26UTC 2009 às 10:09 pm | Publicado em literatura | 2 Comentários

Desde Hipócrates, temos dividido e classificados vários tipos de humor. Referindo-se ao humor que potencializa o comportamento (e não aos líquidos) e, mais especificamente, ao gênero artístico que nos faz sorrir (e não os estados de humor negativos), há ainda várias clasificações. Humor gráfico, non-sense, pastelão, cult, escrachado, negro e por aí vai. Temos muitos engraçadinhos por aí. O problema é que muitas vezes  os humores (e os engraçadinhos) acabam não tendo graça nenhuma. É por isso que é muito bom encontrar um livro de humor com qual se ri. E ri muito.

Diário de um Banana, de Jeff Kiney, é um livro para pré-adolescentes, sobre pré-adolescentes com elementos de HQ e um texto de qualidade inquestionável. Atrás da simplicidade da proposta (é um diário que conta as experiências pessoais do personagem principal), dos desenhos (são bonecos de palitinhos melhorados) e das frases curtas e simples (ainda escritas com uma fonte estilo “comics” em linhas de caderno) há uma crítica sagaz ao comportamento típico desta faixa etária. E se engana quem espera encontrar elementos infantis. Ganha da maioria das obras “adultas” na lista dos mais vendidos.

Ah, e tem principalmente piadas. E boas piadas, como esta abaixo.

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Já foi publicada o segundo volume aqui no Brasil (“Rodrick é o Cara”).  O original está no terceiro volume e há mais dois previstos. Além de uma adaptação cinematográfica.  Para quem quiser rir, fica a dica.

história, tempo e espaço

21, abril 21UTC 2009 às 10:56 am | Publicado em literatura, Uncategorized | 9 Comentários
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O que é uma história? Uma sucessão de eventos narrados e dispostos em uma sequência temporal.  Se for uma história de ficção, então os eventos e a sequência devem ser criados de modo a tornar a experiência de ouví-la (e vê-la e sentí-la) mais enriquecedora possível.

Algumas artes – como o teatro, o cinema (incluindo a animação) e as histórias em quadrinhos – adicionam à dimensão temporal das histórias a dimensão espacial. Os eventos também devem ser pensados em termos de largura, altura, profundidade, esquerda, direita, em cima e embaixo (aliás, por que em cima é separado e embaixo é junto?). 

O que não deixa de ser bem natural, já que o cérebro humano processa a orientação espacial e temporal em zonas praticamente únicas (a saber, as áreas 3ªs do córtex posterior, segundo o modelo de Luria).  Mesmo antropologicamente, nunca se encontrou alguma cultura que não associasse fortemente tempo e espaço. Na sociedade juidaco-cristã, p. ex., o tempo é linear com um início (a Criação) e um fim (o Juízo Final). Assim o futuro fica na frente e o passado atrás. Tempo e Espaço anda juntos nesta longa estrada da vida.

É de se pensar se mídias e recursos proporcionados pela informática não mudariam a maneira de contar histórias. Pois – como sempre bem argumenta Scott McCloud – com o computador o artista não precisa mais se ater aos limites de uma página de papel ou a uma tela de cinema. Seus recursos espacias são potencialmente ilimitados. Obras incríveis poderiam aparecer. 

Não estão aparecendo. Mas vasculhando bem, aqui e ali encontramos coisas boas. Vejamos duas que encontrei recentemente.

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I am not a artist é uma HQ digita lque lembra bastante a já clássica When I am King. Com desenhos intecionalmente simples e um roteiro fantástico, sobe e desce pela tela do computador circularmente (!) numa interação privilegiada entre forma e conteúdo. Dica do Universo HQ.  

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オオカミとブタ (Stop motion with wolf and pig) é uma animação japonesa que distribui milhares de fotografias de stop motion em uma casa, criando outro stop motion. Impressionante como a distribuição de fotos bidimensionais em um ambiente tridimensional cria outro ambiente tridimensional. Dica do Estrangeiro Burro.

O que estas obras tem em comum? Nenhuma fala, poucos recursos, extrema criatividade e uma intrincada relação entre tempo e espaço que só o advento da informática poderia proporcionar. Ou, em outras palavras, são boas histórias.

como influênciar pessoas

23, novembro 23UTC 2008 às 9:48 am | Publicado em literatura | 5 Comentários

influenciar

Uma primeira lição bem que poderia ser:

Escreva corretamente.

Ou

Procure um bom revisor.

Mas tenho a impressão que isto não consta no livro

livros amarelos

22, agosto 22UTC 2008 às 6:05 pm | Publicado em literatura | 1 Comentário

Por coincidência providência do destino (se foi do destino então não pode ter sido coincidência) acabei por ler na seqüência dois livros amarelos. E muito bons, com leitura altamente recomendada, diga-se de passagem.

De passagem (e passagens) é justamente sobre o que se fala em um deles. “O Livro Amarelo do Terminal“, de Vanessa Bárbara, conta histórias sobre o maior terminal de ônibus da América Latina, o terminal do Tietê. A Vanessa, que escreve sempre na revista piauí e tem um site no mínimo interessante, escreveu o texto todo como seu trabalho de conclusão de curso quando se formou como jornalista. São histórias deliciosas sobre pessoas que viajam, trabalham, se escondem na grande rodoviária e sobre ela própria como personagem (a rodoviária, não a Vanessa). O projeto gráfico do livro é bem modernoso, com finas folhas amarelas (que dão o nome ao livro) que podem ser visualizadas na frente e no verso (criando desenhos nunca dante vistos na literatura nacional). O que faz pensar em como se chamava o livro antes de se tornar livro. “O TCC branco do terminal”?

Pelo orkut a autora me respondeu que o título do seu trabalho foi “Histórias de Partida”, se não me engano. Mas agora o livro é amarelo mesmo e me parece que o título ficou melhor, mais de acordo com seu conteúdo (leia um trecho aqui e outro aqui). Pelo orkut também, alguns membros da comunidade da revista piauí tem dito que a autora imita o estilo do jornalista americano Gay Talese. Bom, como eu nunca li nada dele, para mim as linhas amarelas são bastante originais. E feitas sob medida para ler enquanto se espera o ônibus ou então dentro dele.

O outro livro amarelo que li quase concomitantemente é “O Médico Doente“, do Drauzio Varella. Embora o autor tente fazer um suspense nas páginas iniciais sobre qual doença o acometeu (antes de descrever brilhantemente toda a sua experiência subjetiva do outro lado do hospital) a capa amarela e o mosquito Aedes aegypti como meio de transporte na logo da Companhia das Letras já entregavam a cor da febre que quase lhe levaria à morte.

Quem conhece o Drauzio apenas de suas reportagens no Fantástico precisa ler suas linhas. Na televisão ele é simplão de propósito, quer alcançar seu público alvo. Nos livros o médico mostra erudição sem arrogância e desenvolve uma escrita fluida e cativante sem ser piegas. Suas digressões nos meandros dos causos que conta valem cada esforço envolvido na leitura. Embora não seja o seu melhor livro (“Estação Carandiru” e “Por um fio” ganham o ouro e a prata), “O Médico Doente” não me deixou em paz até que conseguisse terminá-lo. Só não li numa única madrugada porque seus relatos de como a doença o faziam sonolento e desacordado não me permitiram me manter em vigília. Mas na manhâ seguinte estava liquidado. O livro. Eu estava cheio de energia.

Como só a cor amarela sabe fazer.

na natureza selvagem

1, junho 01UTC 2008 às 11:14 pm | Publicado em literatura | 12 Comentários

Chris em seu famoso auto-retrato. Mais fotos reais aqui.

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Quando há uma versão cinematográfica de algum livro (quer seja literatura ou não-ficção) raramente a adaptação imagética sequer chega à altura da linha escrita. Uma boa exceção (como também é “Reparação”) é a história do jovem Chris McCandless, também conhecido como Alex Supertramp, contada no papel e na telona.

No início da década de 90, com seus vinte e poucos anos, o rapaz trocou uma confortável vida de classe média americana e um futuro promissor pela aventura na estrada pedindo carona e ambientes inóspitos, como o Alasca, onde resolve viver isolado com o mínimo de recursos por meses.

Conheci essa história no filme “Na natureza Selvagem” dirigido por Sean Penn (quem puder ainda asssitir no cinema vale a pena, mas já está saindo também em DVD). A força da narrativa foi grande suficiente para que em seguida eu lesse o livro em poucas tacadas. O livro revelou-se um excelente complemento explicando muitas passagens mais rápidas da narrativa e apresentando o destino posterior (ignorado no filme) de boa parte dos personagens. E, em uma via contrária, foi possível perceber o quanto a película conseguiu dar uma cara cinematográfica fidelíssima a informações objetivas e relativamente frias impressas no livro.

O livro homônimo de Jon Krakauer tenta entender o comportamento e o entorno do jovem com documentos, fotografias, relatos de personagens envolvidos e pessoas próximas, descrições de outros aventureiros famosos com desempenho similar e as experiências pessoais do próprio autor em suas próprias aventuras. Nas palavras de Krakauer (2008, p.10):

“Ao tentar compreender McCandless, cheguei inevitavelmente a refletir sobre outros temas mais amplos: a atração que as regiões selvagens exercem sobre a imaginação americana, o fascínio que homens jovens com um certo tipo de mentalidade sentem por atividades de alto risco, os laços altamente tensos que existem entre pais e filhos. O resultado dessa investigação cheia de meandros é este livro.”

Enquanto isso o filme consegue organizar todas essas informações com um excelente fotografia (o diretor de fotografia é o mesmo dos “Diários de Motocicleta” e consegue captar a essência de um road-movie), trilha sonora de primeira composta e intrepretada por Eddie Vedder e um desempenho surpreendente do ator Emile Hirsch.

Assista o filme. Leia o livro. Ouça a trilha sonora. Não porque um é melhor do que o outro, mas porque nas suas diferenças são naturalmente complementares.

Mas, por favor, não troque nenhuma dessas experiências por uma aventura real. Há muitas histórias que merecem ser contadas (e estas obras mostras o quanto é bom quando elas são bem contadas). Mas o pior é não ter nenhuma história para contar.

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