profissão de fé

14, outubro 14-03:00 2008 às 5:22 pm | Publicado em educação | 7 Comentários
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Nos últimos dias andei recebendo visitas extras a este blogue procurando “frases sobre professores”. A razão parece estar nas vésperas do dia do professor; muita gente querendo homenagear seus mestres com frases bonitas e significativas. O curioso é que neste espaço acabam se deparando com as “frases que o professor odeia ouvir“.

Na verdade não há tantas frases bonitas assim sobre esta nobre profissão como deveria haver. Eu mesmo anos atrás procurei por boas citações sem encontrar uma que satisfizesse.  Será tão difícil falar bem de um professor? Ou, em outras instâncias, o que é mesmo ser professor?

Etimologicamente, professor é aquele que professa. Professa o quê? O deus-currículo, o conteúdo da apostila, as normas da ABNT, o que cai no vestibular,  como se inserir no mercado de trabalho, como consumir mais e melhor, a vida, o universo e tudo mais… Seja o que for, a profissão de professar tem suas raízes no discurso religioso da pregação e, por que não, da conversão à verdade.

Daí vem a necessidade do aluno ser disciplinado. Quem tem disciplina é o discípulo. Embora o aluno não seja o ser “sem luz” que muitos apregoam, etimologicamente é o ser que deve ser nutrido e o educador, etimologicamente também, aquele que realiza o contra-papel de nutrir. Alimentar com a verdade.

Abre parênteses. (

E, já que entramos no universo da origem das palavras, particularmente gosto mais da origem do nome do pedagogo. É aquele que conduz a criança. O aprendiz, na grécia antiga, aprendia mais na ida e na volta com o escravo que o levava do que com o seu mestre propriamente dito que falava incompreensíveis sentenças de cima de seu pedestal. Ou seja, quem realmente ensina é aquele que não se coloca acima, mas está ao lado do aprendiz. Embora, se formos levar a risca a etimologia do termo, o verdadeiro pedagogo hoje seja o motorista do transporte escolar, afinal é ele que realmente leva-e-trás as crianças.

) Fecha parênteses.

Mas o problema desta aura religiosa em torno do professorado é a descrição desta atividade como uma vocação e não como uma profissão propriamente dita. Vocação é chamado (ou chamamento). Mas quem chama? Deus? O diabo? Ou a direção da escola? Alguém ouve por aí que ser pedreiro é vocação? Ou ser administrador? Ou ser engenheiro de telecomunicações? Por que, então, o professor é vocacionado?

Talvez porque tenha algo inato, já nasce com o dom de ensinar. Se for assim, ninguém pode se tornar professor ou, pior, melhorar seu desempenho profissional. Afinal, assim já se nasce e não se deve interferir nos desígnios divinos. E desta forma as aulas dadas na década de 80 continuam sendo as mesmas de hoje.

Aliado a isso, quem faz algo por vocação não precisa de (muita) remuneração. Afinal, faz por prazer ou, em último caso, por designação divina. Talvez por isso os administradores, engenheiros de telecomunicações e pedreiros ganhem mais que os professores. Talvez até a maioria dos sacerdotes que professam religiões oficiais ganhem mais que a média dos professores. Não sei.

Sei que talvez frases bonitas sobre a docência falem sobre a sua missão transcendental. Mas é na imanência (onde o professor precisa ter dinheiro para poder comprar novos livros, ir ao cinema e não precisar se matar trabalhando em três empregos) que alguém ensina e, de repente, também aprende.

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