pra matar a sede sem tradição

6, Julho 06UTC 2009 at 3:33 pm | In cotidiano | Leave a Comment

- Vai um chima?

Tomar chimarrão é um hábito tão frequente quanto oferecê-lo. A hospitalidade e a qualidade artesanal da cuia e da feitura da erva mate são valores inserparáveis de uma tertúlia.

Por isso muita gente pode estranhar se alguém oferecer:

- Vai um Xima?

E oferecer um refrigerante.

xima

É um desses refris de baixa caloria levemente gaseificados com cara de água mineral, mas que continuam sendo refrigerante. Realmente, é estranho um chimarrão (ou chá de erva mate) industrializado e com cara modernosa.  Mas se o pessoal bebe derivados de chá verde a torto de a direito devido às suas propriedades saudáveis – considerando que a planta é originária de outro lado do planeta –  por que não fazer o mesmo com uma planta daqui com propriedades iguais (ou dizem alguns, até superiores)?

Quando ao gosto… bom, prefiro o original, sem gás nem fenilalanina. Vai um chima?

e a vida nunca mais será a mesma

1, Julho 01UTC 2009 at 6:55 pm | In desenhos, histórias verídicas que realmente aconteceram | 5 Comments
Tags:

resultado

bons ares

28, Junho 28UTC 2009 at 11:03 pm | In desenhos | 2 Comments
Tags:

balão

.

O paradoxo dos ares: o meio de trasporte aéreo mais seguro é o que parece mais frágil.

meus pêsames não bastam

24, Junho 24UTC 2009 at 10:09 pm | In cotidiano | 3 Comments
Tags: ,

Yuriy_Kosobukin_UkrineCharge do Yuriy Kosobukin, da Ucrânia

Sinceramente, nunca sei o que dizer a alguém enlutado durante o velório. Os “meus pêsames” e/ou “meus sentimentos” sempre me apareceram artificiais demais, cumprindo tabela. Se for para dizer isso, parece melhor não dizer nada. Uma conversa informal também é perigosa, pois o risco de soltar um “tudo bem?” automático é grande. E é lógico que não está tudo bem.  Assim fico lá meio sem jeito, acreditando que vale mais a presença e um abraço de verdade do que palavras pouco inspiradas.

Dito isto, posso afirmar o que mais me chocou na entrevista do pai do ex-deputado Fernando Carli Filho. Não foi o comentário da volta do filho à política, nem a negação de que a carteira estava suspensa. Foi a afirmação de que logo ele e sua esposa procurariam os pais dos rapazes falecidos para conversar.

O que é que se fala para pais  enlutados quando foi o seu filho o assassino? Se os “meus pêsames” mal servem em uma ocasião normal, imagine nesta. Desculpe? Erramos na educação? Entendemos o que estão passando? Se precisarem alguma coisa estamos por aí?

A Sílvia Calciolari já escreveu que deve ser duro ser a mãe deste ex-deputado. Concordo. Entre os muitos boatos que rondam o caso, um dos mais frequentes é que esta mesma mãe não estava em Curitiba quando aconteceu o “acidente” porque viajava em perigrinação na Terra Santa pedindo para uma recuração moral do filho, que já andava em caminhos tortos há algum tempo.

A família de uma das vítimas já se pronunciou indignada, com razão, com a entrevista recente.  Confesso que estou muito curioso sobre como essa conversa acontecerá, se é que acontecerá. Aliás, por que ficar anunciando isto? Por que não conversaram até agora?  (Como diz aquela velha música de AM: “você tem meu endereço / você tem meu telefone / mas você não passa lá”. )

Há tempo eu já sei que políticos são caras-de-pau. Mas não imaginei que fossem tanto assim.

a caça às bruxinhas

17, Junho 17UTC 2009 at 2:58 pm | In educação | 6 Comments

Trabalhei em uma escola evangélica durante algum tempo. A escola era de porte médio, bem estruturada e com uma biblioteca cujo acervo contava com obras em boa quantidade e qualidade. (Os livros apenas eram catalogados, curiosamente, como se fossem filmes na locadora: havia aventuras, comédias, suspense, drama e… lançamentos!) Certa ocasião, a diretora resolveu eliminar da biblioteca todos os livros que fizessem referência a bruxas e fadas, afinal as narrativas pagãs estavam em desacordo com o posicionamento religioso da instituição. Tudo bem, a decisão foi coerente com a ideologia defendida, mas a procura pelos personagens proibidos executada livro a livro pela bibliotecária levou à fogueira ótimos títulos, como os da coleção da “Bruxa Onilda“.

bruxa onildaBruxa Onilda, em sua melhor forma

.

Em uma escala maior e com critérios bem menos explícitos tem ocorrido um fenômenos de proibir-se livros e histórias em quadrinhos nas bibliotecas escolares brasileiras. Tudo começo no estado de São Paulo, quando o governo de José Serra proibiu a HQ “Dez na área, uma na banheira e ninguém no gol”. Alegou-se que a obra continha conteúdo pornográfico. José Serra chegou a afirmar que a obra era “de muito mal gosto”.

deznaarea

O mundo da bola segundo o “Dez na Área..”

.

Depois foi a vez de “Um Contrato com Deus“, uma das obras mais famosas domaior mestre dos quadrinhos, Will Eisner, ser recolhida também em  São Paulo.

um contrato com deusA cena mais pesada de “Um Contrato com Deus”

.

Seguiu-se Santa Catarina, retirando as “Aventuras Provisórias” de Cristóvão Tezza das escolas. E, quando o assunto já parecia velho, aparece agora o Paraná censurando a coletânea de contos “Amor à Brasileira”, com um texto do Dalton Trevisan e, novamente, “Um Contrato com Deus”. Isso graças a um vereador de União da Vitória que resolveu criar caso com as obras.

Muito já foi comentado sobre o assunto. [Vale muito a pena ler a "defesa" do Tezza para a sua obra, o acompanhamento que o Paulo Ramos tem feito dos casos no Blog dos Quadrinhos, a coluna do Alessandro Martins no Jornalismo FM e o excelente post do Elton.]

O que tenho a acrescentar é que os professores, orientadores, diretores, vereadores, governadores (enfim, para o bem ou para o mal, educadores) que proíbem de ler Will Eisner são os mesmos que indicam Machado de Assis para a sexta série. [Aliás, um das cenas mais eróticas que já li na vida foi o Bentinho trançar (calma sensores, eu disse "trançar" e não "transar"!) os cabelos de Capitu na infância.] E depois se queixam que os alunos não gostam de ler.

Há idade para tudo, claro. Mas este moralismo vitoriano subestima a inteligência e a (falta de) inocência de nossos alunos. E ainda são os mesmos educadores que, de consciência tranquila, talvez liguem a telvisão à noite e pensem o quanto é bom (e instrituivo e extremamente educativo) que uma novela mostre a cultura de outro país.

São pessoas que talvez, na ânsia de querer muito ensinar, esquecem de aprender. Aprender a ler um livro e uma boa história em quadrinhos, mesmo que tenha uma ou outra cena mais caliente. Na novela é o que mais há (sem a parte boa das outras obras) e ninguém reclama (ok, novela não passa na escola, mas todo mundo assiste).  E assim perdem a chance, inclusive, de discutir a sexualidade de uma forma sadia.

Vejamos os quadrinhos do “Dez na Área” citados aí em cima. Há palavrão e refeferências sexuais? Sim, mas aparecem de forma pejorativa. Há referência à pedofilia no “Um Contrato com Deus”? Sim, mas o pedófilo em questão afunda em seu desespero e se dá muito mal no desenrolar do conto.

Onde quero chegar? O que se pode ler (assistir, escutar, jogar) sem mediação? Quase nada. O que se pode ler (assistir, escutar, jogar) com mediação? Quase tudo. Vamos trabalhar, colegas educadores, e deixar de culpar as pobres bruxinhas esquecidas num canto da biblioteca pelos males do mundo.

Bom, ainda vai chegar o dia em que algum educador resolva ler a Bíblia atentamente e perceba que, principalmente lá no Antigo Testamento, sexo e violência recheiam as páginas do livro sagrado. Aí eu quero ver que livro sobra na biblioteca. Chapeuzinho que se cuide.

segue o fluxo

13, Junho 13UTC 2009 at 10:24 pm | In desenhos | Leave a Comment

FLUXO

o dia em que nevou (de novo) em Curitiba

1, Junho 01UTC 2009 at 10:06 pm | In curitiba | 6 Comments
Tags:

 

Hoje nevou em Curitiba.Não uma neve teórica, dessas que malmente ultrapassam o limite da definição entre a neve e a não-neve.Uma neve verdadeira, densa, pesada e abundante.
 
Perante o grito de alegria dos vizinhos todos pararam de praguejar contra o frio e pularam da cama, mergulhando seus pés agasalhados e as franjas do roupão na camada branca que cobria a cidade. Toda a cidade, não só as baixadas com seus gramados e telhados que costumavam sentir a geada nos dias em que o rádio noticiava o dia mais frio do ano.
Os velhos celebravam as memórias de outrora. Os adultos jovens secretamente vingavam-se de seus primos mais velhos que haviam presenciado o 17 de julho de 1975. Esta neve certamente é bem maior que aquela que prometia ser a última neve da história da cidade, principalmente depois do aquecimento global. 
Alguns duvidaram que o aquecimento global existia realmente. Outros confirmara sua presença: que tempo louco é esse que um dia faz o dia mais quente da história e outro dia o mais frio? Poucos, porém, realmente viam a neve diretamente. Todos fotografavam e filmavam, preocupados em manter o dia irrepetível para posteridade e suas histórias no lar, no bar e no youtube.
Uma criança, entretanto, não gostou de ser tirada da cama nessa hora e nesse frio. E achou a neve muito molhada e suja.

 

neve

Hoje nevou em Curitiba. Não uma neve teórica, dessas que malmente ultrapassam o limite da definição entre a neve e a não-neve. Uma neve verdadeira, densa, pesada e abundante.

Perante o grito de alegria dos vizinhos todos pararam de praguejar contra o frio e pularam da cama,  mergulhando seus pés agasalhados e as franjas do roupão na camada branca que cobria a cidade. Toda a cidade, não só as baixadas com seus gramados e telhados que costumavam sentir a geada nos dias em que o rádio noticiava o dia mais frio do ano.

Os velhos celebravam as memórias de outrora. Os adultos jovens secretamente vingavam-se de seus primos mais velhos que haviam presenciado o 17 de julho de 1975. Esta neve certamente é bem maior que aquela que prometia ser a última neve da história da cidade, principalmente depois do aquecimento global. 

Alguns duvidaram, inclusive, que o aquecimento global realemente existia. Outros confirmaram sua presença: que tempo louco é esse que um dia é o mais quente da história e noutro o mais frio? Poucos, porém, realmente viam a neve diretamente. Fotografavam e filmavam, preocupados em manter o dia irrepetível para posteridade e suas histórias no lar, no bar e no youtube.

Uma criança, entretanto, não gostou de ser tirada da cama nessa hora e nesse frio. E achou a neve muito molhada e suja.

aproximadamente normal

26, Maio 26UTC 2009 at 12:10 am | In educação, psicologia | 14 Comments

curva normal

Uma curva normal normal

.

Entre as minhas atividades pouco usuais está a de ser professor de estatística. Tive uma forte formação na área de humanas (leia-se uma fraca, ou nula, formação na área de exatas) durante minha graduação em psicologia. Mas durante meus estudos posteriores felizmente descobri que os números não precisam lutar contra as palavras e resolvi aprender estatística de verdade. 

Assim, hoje leciono uma disciplina de Introdução à Estatística para uma turma de calouros de psicologia. O que é uma tarefa ingrata (mesmo que bastante desafiadora), visto que o aluno desta área espera nunca mais ver matemática na vida e por isso metade do esforço da disciplina é tentar não criar hojeriza para si mesma (mas, paradoxalmente, se o aluno adorar a disciplina ele é aconselhado a mudar de curso, afinal não vai encontrar muitas outras coisas parecidas no currículo do curso). A outra metado do esforço é para mostrar como estatística é importante para as ciências humanas principalmente para poder escolher métodos apenas qualitativos por pura opção metodológica e não pela ignorância dos métodos quantitativos. 

Mas há pontos de extremo contato entre estatística e psicologia. O meu tema preferido é o da Curva Normal. O conceito de normalidade em psicologia tem origens e implicações históricas, filosóficas, sociológicas e  antropológicas (sobre isto pergunte ao Catatau, a maior perito que conheço no assunto, junto com seus amigos Foucalt, Deleuze, Guattari e Canguilhem). Mas bem procuradinho o conceito de normalidade talvez venha mesmo é da curva normal desenhada por Carl Gauss e aprimorada por Francis Galton (que também contribuiu muito para a psicologia lançando umas das primeiras perspectivas científicas, mesmo que deturpada,  sobre a inteligência). Ser normal é estar dentro dos dois desvios-padrões que circundam a média, é pertencer à maioria de uma distribuição. Se você cai para o canto da curva de sino, passa a ser menos normal.

norma9Uma curva normal estilosa

.

Neste sentido a normalidade é o comum, o ordinário, o frequente (o mesmo vale para o conceito de moda, outra expressão cotidiana com origem em um termo estatístico).  O que foge do comum (deficiência, loucura, pobreza, homosexualidade…) é anormal. 

O problema é que, como cantava Caetano,

“De perto ninguém é normal.”

O que faz muito sentido, já que é impossível ser ordinário em tudo. Há sempre um desvio (estatístico que seja) em alguma dimensão da vida. E na medida em que nossa sociedade foi percebendo isso e trazendo um pouco de alteridade para o cotidiano, ser normal não só deixou de ser o esperado como passou a ser algo inclusive indesejado. Cantou também o maluco beleza:

“Enquanto você se esforça pra ser/

Um sujeito normal/

E fazer tudo igual/

Eu do meu lado aprendendo a ser louco…”

E o resto da música você conhece. Pois bem, ser normal ja não é (se é que um dia já foi) o objetivo último da humanidade.

E, depois de tantas voltas, chego finalmente onde queria. Dando uma olhada nos rótulos de shampoo no supermercado encontrei uma classificação bastante interessante sobre os tipos de cabelo. Há shampoo para cabelos secos e danificados, caheados e rebeldes, frágeis e quebradiços, quimicamente tratados, com pontas duplas, difíceis de alisar. E, finalmente, shampoo para todo tipo de cabelo e de cabelo normal a oleoso. Considerando que o shampoo para todo tipo de cabelo é para as crianças (também chamadas de kids e que por enquanto parecem ter só um tipo de cabelo), sobra a opção “cabelo normal” apenas para o shampoo que inclui na sua fórmula a opção “oleoso” também. Nisto me pergunto se alguém compra (ou pede que o marido traga do mercado) este shampoo porque seu cabelo é normal. O que é um cabelo normal? Que é que considera seu cabelo normal? O normal (capilarmente falando) parece não ser normal (estatisticamente falando).

pequeno principeParece uma curva normal, mas é uma jibóia.

.

É formidável haver tanta diversidade. Em nossa sociedade do consumo, escolhe-se o shampoo como se escolhe a religião, a educação dos filhos, o estilo musical preferido, o meio de transporte, enfim, quase tudo. Afinal as inúmeras opções estão aí para agradar o freguês. Mas curiosamente, a insatisfação parece crescente.

Longe de mim defender a tradição, família e propriedade como bastiões para um mundo sensato, mas esta neo-pós-modernidade deixa as aulas de estatística um pouco mais difíceis.

lições que a vida me ensinou

18, Maio 18UTC 2009 at 9:39 pm | In cotidiano | 7 Comments

cotovelo.

Creio que devo satisfações devido a quase um mês sem atualizações neste espaço.  Sendo destro, quebrei o braço direito (na verdade o cotovelo) em um acidente bobo de bicicleta (onde o agressor, a vítima e o socorrista eram a mesma pessoa). Se isto não me impediu de levar a vida normalmente (se levar a vida normalmente significa não fazer nenhuma atividade física de impacto moderado, não desenhar, não tocar violão e/ou jogar Nintendo Wii), ao menos tornou mais lenta algumas atividades (as que envolviam digitação, por exemplo), deixando uma pilha de atividades por fazer que estou tentando atualizar agora.

Esclarecido, seguem abaixo precisas lições de vida que não são generalizáveis para ninguém. 

 

1. O braço esquerdo é capaz de coisas que o direito nem imagina.

 

Um pouco de treino e o lado sinistro acaba se revelando. Me orgulhei muito de conseguir ser legível escrevendo no quadro e de passar desodorante sozinho em ambos os sovacos.

 

2. As pessoas (não-motoristas) são prestativas no ônibus

 

Uma tipóia e gesso visíveis conseguem facilmente lugar para sentar. O segredo é o contato visual com as pessoas sentadas nos assentos preferenciais.

 

3. Os motoristas (não-pessoas) não são prestativos no ônibus

 

O aviso sonoro de “porta fechando” nos biarticulados era um alerta para tomar uma decisão rápida entre desistir de entrar/sair no ponto certo ou arriscar perder o que sobrou do braço em recuperação. Mais ou menos como um Dante chegando no inferno: “Deixai toda esperança nas portas 2 e 4.”

 

4. Cansa repetir a mesma história 1.542 vezes

 

Compreendia e agradecia a empatia de todo mundo ao me ver engessado, mas confesso que chegava às vezes ser irritante contar a mesma história sempre.  Por isso criava várias versões e até inventava algumas bem diferentes. Mas na maioria das vezes contei a mesma coisa. Pensei seriamente em colocar como aconteceu o acidente todo em detalhes em algum site (com fotos, simulações em 3D e depoimentos) e entregar o endereço para quem preguntasse. Seria menos trabalhoso. Mas bem menos empático da minha parte.

 

5. O capacete é importante

Eu já sabia, mas a hipótese só foi corroborada. Se não fosse por ele, era a cabeça que estaria engessada.

 

6.  Todos tem uma história sobre acidente de moto

Ouvi algumas vezes o comentário (idiota): “é por isso que não ando de bicicleta”. Mas ouvi muito mais sobre fraturas e sérias consequências de acidentes com motocicletas. Caindo da bicicleta, fraturei o cotovelo, mas não precisei de cirurgia, bastou esperar que o corpo cuidasse de si. De moto talvez nem o capacete desse conta e nem haveria cotovelo inteiro para contar a história.

Pronto. Agora que cotovelos estão inteiros e na impossibilidade que eles tem de se expressar, falarei, enfim, pelos cotovelos.

história, tempo e espaço

21, Abril 21UTC 2009 at 10:56 am | In literatura | 5 Comments
Tags: , , , ,

O que é uma história? Uma sucessão de eventos narrados e dispostos em uma sequência temporal.  Se for uma história de ficção, então os eventos e a sequência devem ser criados de modo a tornar a experiência de ouví-la (e vê-la e sentí-la) mais enriquecedora possível.

Algumas artes – como o teatro, o cinema (incluindo a animação) e as histórias em quadrinhos – adicionam à dimensão temporal das histórias a dimensão espacial. Os eventos também devem ser pensados em termos de largura, altura, profundidade, esquerda, direita, em cima e embaixo (aliás, por que em cima é separado e embaixo é junto?). 

O que não deixa de ser bem natural, já que o cérebro humano processa a orientação espacial e temporal em zonas praticamente únicas (a saber, as áreas 3ªs do córtex posterior, segundo o modelo de Luria).  Mesmo antropologicamente, nunca se encontrou alguma cultura que não associasse fortemente tempo e espaço. Na sociedade juidaco-cristã, p. ex., o tempo é linear com um início (a Criação) e um fim (o Juízo Final). Assim o futuro fica na frente e o passado atrás. Tempo e Espaço anda juntos nesta longa estrada da vida.

É de se pensar se mídias e recursos proporcionados pela informática não mudariam a maneira de contar histórias. Pois – como sempre bem argumenta Scott McCloud - com o computador o artista não precisa mais se ater aos limites de uma página de papel ou a uma tela de cinema. Seus recursos espacias são potencialmente ilimitados. Obras incríveis poderiam aparecer. 

Não estão aparecendo. Mas vasculhando bem, aqui e ali encontramos coisas boas. Vejamos duas que encontrei recentemente.

.

imnotanartist1

.

I am not a artist é uma HQ digita lque lembra bastante a já clássica When I am King. Com desenhos intecionalmente simples e um roteiro fantástico, sobe e desce pela tela do computador circularmente (!) numa interação privilegiada entre forma e conteúdo. Dica do Universo HQ.  

.

.

オオカミとブタ (Stop motion with wolf and pig) é uma animação japonesa que distribui milhares de fotografias de stop motion em uma casa, criando outro stop motion. Impressionante como a distribuição de fotos bidimensionais em um ambiente tridimensional cria outro ambiente tridimensional. Dica do Estrangeiro Burro.

O que estas obras tem em comum? Nenhuma fala, poucos recursos, extrema criatividade e uma intrincada relação entre tempo e espaço que só o advento da informática poderia proporcionar. Ou, em outras palavras, são boas histórias.

Próxima Página »

Blog no WordPress.com. | Theme: Pool by Borja Fernandez.
Entries and comments feeds.